Grant Gilmore é o nome por trás das coreografias que transformaram o Katseye, o novo “girl group” global da HYBE (a potência sul-coreana que lançou o BTS), em um fenômeno viral e divisivo. Seus movimentos — descritos como frenéticos, imprevisíveis e, para alguns, até irritantes — são estudados, replicados e debatidos exaustivamente nas redes sociais. Uma coisa é certa: ninguém fica indiferente.
O que um perfil recente do coreógrafo na revista britânica i-D revela, no entanto, é que a genialidade idiossincrática de Gilmore é apenas uma parte da equação. A outra é um processo industrial de otimização criativa que beira o absurdo. A dança que chega ao TikTok não é fruto de um lampejo, mas de uma seleção darwiniana onde apenas a opção mais impactante sobrevive, um método que diz tanto sobre a indústria da música hoje quanto sobre o próprio artista.
A máquina de opções
O método de trabalho entre Gilmore e a HYBE é um estudo de caso sobre a busca incessante por perfeição algorítmica na cultura pop. Para a música “Touch”, o coreógrafo apresentou uma primeira versão que foi aprovada, mas o selo pediu entre 85 e 100 variações adicionais antes de bater o martelo. O caso mais extremo, segundo ele, foi com a faixa “Pinky Up”, cujo refrão exigiu a criação de 155 opções coreográficas distintas. Às vezes, a primeira tentativa é a que fica; na maioria das vezes, é o início de um ciclo exaustivo de iterações.
Essa dinâmica expõe a lógica da indústria do K-pop, agora exportada para um formato global com o Katseye. A arte não é apenas expressão, mas um produto a ser refinado à exaustão para garantir o máximo de “viralidade”. Cada movimento é pensado para ser “eyecatching, impressive”, como descreve a reportagem. A leitura aqui é que a coreografia se tornou um componente tão crucial quanto a melodia na engenharia de um hit, um ativo que precisa ser otimizado com o mesmo rigor de uma linha de código ou de uma campanha de marketing de performance.
Do Texas ao topo do pop
O estilo “esquisito” de Gilmore, no entanto, não nasceu em uma sala de reuniões. Criado no Texas, ele se descreve como uma “ovelha negra” que encontrou na dança um refúgio. Aprendeu a dançar sozinho, aos 8 anos, imitando vídeos no YouTube e se gravando para corrigir os próprios movimentos. Sua trajetória incluiu uma passagem como dançarino de apoio para estrelas como Taylor Swift e Rihanna, mas foi um vídeo de uma de suas aulas que viralizou no TikTok que o colocou no radar da HYBE.
A jornada de Gilmore — do auto-isolamento e da luta com a despersonalização na adolescência para o centro da indústria cultural — informa sua estética. Ele a descreve como “perspicaz” (witty), produto de um “cérebro louco e um passado sombrio”. Essa autenticidade, quando canalizada pelo sistema HYBE e executada com a precisão militar das integrantes do Katseye, resulta em um produto cultural fascinante: uma expressão artística profundamente pessoal, transformada em um espetáculo de massa altamente calculado.
No fim, o trabalho de Gilmore é encontrar harmonia entre sua visão e as demandas do mercado. Ele propõe o caos; a máquina seleciona a ordem. Quando os fãs replicam seus movimentos em frente ao palco, o que se vê é o ciclo completo: a ideia que nasceu em isolamento, foi filtrada por um comitê e, finalmente, devolvida ao público, que a adota como sua. Para Gilmore, que se sente “invencível” quando dança, é a validação máxima.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · i-D





