Enquanto a Suprema Corte americana debatia o futuro do direito ao aborto, a romancista Carson Markland vivia uma vida dupla. De dia, era uma mulher do século 21 cujo corpo era objeto de debate político. À noite, mergulhava na vida de um homem dos anos 1950 que não apenas circulava pelos mais altos escalões do poder, mas influenciava diretamente o curso de seu país: Robert F. Kennedy.
Essa imersão, relatada em um ensaio para o site literário Lit Hub, partiu de uma visão binária do poder — alguns o têm (homens), outros não. Mas a pesquisa para seu romance revelou uma realidade muito mais nuançada. A figura de Bobby Kennedy, longe de ser um monolito de autoridade, tornou-se um estudo de caso sobre a complexa e contraditória performance do poder masculino, desconstruindo o arquétipo do homem poderoso que parece dominar sem esforço.
A desconstrução do mito
A imagem inicial que Markland tinha do poder masculino de meados do século 20 era a de Don Draper: ternos bem cortados, cigarros e uma autoridade inabalável. Bobby Kennedy, com sua reputação de “ruthless” (impiedoso), parecia o encaixe perfeito. Ele foi o estrategista implacável por trás da ascensão de seu irmão, John F. Kennedy, o procurador-geral que enfrentou a máfia e, para muitos, a face sombria e pragmática da dinastia Kennedy. Sua persona pública foi cuidadosamente calibrada ao longo dos anos, do anticomunista que trabalhou com o senador McCarthy ao investigador que combatia a corrupção.
No entanto, os bastidores contam outra história. Bobby não era o herdeiro natural. Era o sétimo de nove filhos, muitas vezes preterido em favor dos irmãos mais velhos e promissores. O poder não lhe foi dado; foi uma consequência da morte trágica de seu irmão mais velho, Joe Jr., na Segunda Guerra Mundial, que alterou a linha de sucessão familiar. Ele era descrito como um homem que tropeçava, a quem nada vinha com facilidade. Uma foto sua aos 12 anos, olhando para o chão com os pulsos juntos de forma quase tímida, revela um traço de incerteza que persistiu no homem adulto. O poder, para ele, não era inato. Era acidental, praticado e, acima de tudo, uma performance.
O poder como cuidado
O aspecto mais revelador da análise de Markland é a descoberta de que o poder de Bobby na esfera privada emanava de traços classicamente associados ao feminino. A anedota mais contundente é a do verão de 1956. Quando Jackie Kennedy sofreu a perda de um bebê natimorto, seu marido, JFK, estava de férias na Europa, descansando após a convenção democrata. Foi Bobby quem correu para o hospital para ficar ao lado da cunhada e quem, mais tarde, organizou o funeral da criança.
Este não foi um episódio isolado. Dentro da complexa máquina política e familiar dos Kennedy, Bobby era a âncora emocional, o cuidador em quem a família confiava nos momentos de crise. Como disse a própria Jackie, “você sabia que, se estivesse com problemas, ele sempre estaria lá”. Essa lealdade e capacidade de cuidado, longe de serem fraquezas, eram a argamassa que mantinha a estrutura unida, permitindo que a ambição política da família prosperasse. Era uma forma de poder que não se manifestava em ordens ou discursos, mas na confiabilidade e na sustentação emocional.
Ao final, a jornada da romancista não foi sobre entender como um homem poderoso fala ou anda, mas como a própria estrutura do poder é multifacetada. Os homens nos livros de história, assim como os que nos cercam, não são monumentos, mas seres falíveis e contraditórios, projetando uma imagem que frequentemente conflita com seu eu privado. A lição que a figura de Bobby Kennedy oferece é que o poder, assim como as pessoas, é escorregadio. Olhar para além da persona pública pode revelar não a fraqueza, mas uma forma diferente e talvez mais fundamental de força.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub




