Há quase quarenta anos, o poeta e Nobel caribenho Derek Walcott desferiu uma crítica ácida contra seu conterrâneo e também laureado, V.S. Naipaul. Em um ensaio, Walcott mirou naquilo que via como uma auto-canonização de Naipaul, que se colocava como um escritor deslocado e incompreendido. Para Walcott, essa pose de exilado soava tão batida quanto um órfão dickensiano, argumentando que “ou todo escritor é um exilado, ou nenhum é”.

Essa farpa literária, revisitada em um recente ensaio do escritor Roger Celestin para a publicação Lit Hub, abre uma discussão que transcende a rivalidade entre os dois gigantes da literatura. A tese é que o próprio conceito de exílio — individual, heróico, quase nobre — tornou-se anacrônico. A palavra parece pertencer a um mundo de números contidos, incapaz de descrever a escala e a natureza dos deslocamentos humanos contemporâneos.

A aura do exilado

O termo “exílio” carrega uma aura particular. Ele evoca figuras proeminentes — filósofos, artistas, presidentes depostos — cuja ausência forçada da terra natal tem uma dimensão política e quase heróica. Pense em Sócrates, que pôde escolher entre a cicuta e o exílio de Atenas. O exilado é uma figura singular, cuja presença no país de acolhimento é vista como exótica e rara, sem ameaçar o que o ensaio chama de “estabilidade populacional”.

Em contraste, os termos que dominam o noticiário atual são outros: migrantes, refugiados, deslocados, indocumentados. Aqui, o que importa são os “grandes números”. Essas populações não são vistas como um conjunto de indivíduos com histórias singulares, mas como uma massa anônima cuja chegada é percebida como um fator de desestabilização. A crítica de Walcott, portanto, era premonitória: diante de movimentos migratórios em massa, a romantização do sofrimento individual do escritor-exilado perde sua potência e soa como um privilégio.

A instabilidade do pertencimento

A tensão entre quem “pertence” e quem é “de fora” é capturada de forma magistral, segundo Celestin, em uma cena do filme Casino (1995), de Martin Scorsese. Nela, o gerente do cassino Sam Rothstein — um especialista judeu-americano enviado por mafiosos de Chicago — é confrontado por um fazendeiro local após demitir um funcionário com conexões. O cowboy, um arquétipo da “América real”, decreta: “Seus amigos nunca entenderão como as coisas funcionam por aqui. Vocês são apenas nossos convidados, mas agem como se estivessem em casa. Deixe-me dizer uma coisa, parceiro: você não está em casa”.

Essa frase encapsula a lógica nativista: o pertencimento é definido pelo tempo. O grupo que chegou antes solidifica sua presença como a origem autêntica, relegando os recém-chegados à condição de “convidados”. Contudo, o próprio filme mostra a fragilidade dessa lógica. A máfia italiana é eventualmente expulsa de Las Vegas por novos operadores de mercado, financiados por junk bonds e gestão corporativa. A fluidez do capital e das populações torna qualquer reivindicação de “sangue e solo” temporária. O ornamento indígena no chapéu do cowboy é um lembrete silencioso de que ele mesmo ocupa uma terra que já pertenceu a outros.

A velocidade e a escala das mudanças atuais tornaram o mundo mais parecido com o final de Casino do que com o início. O conceito de exílio, com sua cadência lenta e foco no indivíduo, parece uma relíquia. O próprio autor do ensaio, ao escrever um romance sobre o tema, se pergunta se o gênero literário em si não estaria se tornando um artefato de um tempo passado, um ornamento charmoso, mas deslocado, em um mundo definido por movimentos em massa e identidades fluidas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub