O Conselho Geral dos Colégios de Gestores Administrativos da Espanha pediu formalmente ao governo uma revisão da implementação do “Verifactu”, o novo sistema de fatura eletrônica que se tornará obrigatório no país. Com prazos que se iniciam em 2027, a regra visa modernizar a fiscalização e combater a fraude, mas encontra resistência por não diferenciar o porte das empresas.

A disputa, reportada pela Forbes España, expõe uma tensão clássica na digitalização do Estado: o ímpeto por controle e eficiência top-down versus a realidade operacional de pequenas e médias empresas. O argumento central dos gestores é que a abordagem “one-size-fits-all” — descrita ironicamente como “café para todos” — arrisca criar um fardo burocrático desproporcional para a espinha dorsal da economia.

O Risco da Eficiência Desproporcional

Os números justificam a preocupação. As PMEs constituem 99,8% do tecido empresarial espanhol. Nesses negócios, o fundador frequentemente acumula as funções de gestão, finanças e RH. Cada nova exigência regulatória, por mais digital que seja, representa tempo subtraído da atividade principal: vender, atender clientes e gerar empregos. A crítica não é uma oposição à tecnologia, mas à sua aplicação indiscriminada.

Como pontuou Fernando Jesús Santiago, presidente do Conselho Geral, é difícil justificar que uma barbearia ou um autônomo suporte as mesmas obrigações administrativas de uma multinacional, especialmente quando a própria tecnologia permite diferenciar perfis de risco fiscal. A proposta do grupo é a adoção de uma “regulação inteligente”, com isenções seletivas e critérios objetivos. O debate espanhol ecoa de perto os desafios do Brasil com seu complexo sistema SPED e a Nota Fiscal Eletrônica, onde o custo de conformidade é uma dor de cabeça constante para empreendedores.

O caso, portanto, serve de laboratório para uma questão global. A digitalização do Estado deve se adaptar à diversidade do tecido empresarial ou forçar uma padronização que, no fim, pode se provar ineficiente para a maioria? A resposta definirá o verdadeiro custo da modernização para quem está na ponta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España