Em meio à euforia com a inteligência artificial, um debate acirrado divide o mercado: o boom de investimentos é uma aposta racional no futuro ou uma bolha especulativa prestes a estourar? A resposta, muito provavelmente, é ambas as coisas. A IA irá, sem dúvida, transformar a economia e a sociedade, mas boa parte do capital que hoje irriga o setor pode evaporar no processo — um padrão histórico em revoluções tecnológicas.
A análise é de Henry Blodget, cofundador do Business Insider, que testemunhou o estouro da bolha pontocom e a crise financeira de 2008. Para ele, o ciclo atual repete uma receita conhecida: a combinação de uma inovação que gera demanda massiva (“crescimento”) com mecanismos financeiros que amplificam essa demanda (“alavancagem”). O paralelo com o fim dos anos 90 é direto. Naquela época, o crescimento da internet era real e a alavancagem vinha de bilhões de dólares em dívidas para construir redes de telecom. Quando a oferta alcançou a demanda e o crédito encareceu, a música parou. A tese é que o mesmo roteiro está em curso com a IA.
O crescimento e a alavancagem
Os números do crescimento atual são, de fato, impressionantes. A Anthropic, uma das líderes em modelos de IA, viu sua receita explodir de US$ 4,8 bilhões no primeiro trimestre para US$ 11,6 bilhões no segundo. Segundo a reportagem, a empresa opera hoje com uma receita anualizada de US$ 65 bilhões, uma multiplicação de sete vezes em um ano. Um ritmo de crescimento que, segundo Blodget, não tem precedentes e ajuda a justificar uma avaliação que se aproxima de US$ 1 trilhão.
Até mesmo a OpenAI, que perdeu o foco inicial e a liderança, estaria com uma receita anualizada de US$ 40 bilhões. Seu crescimento sequencial, contudo, desacelerou para 18% no segundo trimestre, um sinal de alerta em um mercado que se move com velocidade vertiginosa. A leitura é que a OpenAI corre o risco de se tornar a “Netscape da era da IA”: a pioneira que define a categoria, mas acaba ultrapassada. Ainda assim, a performance de ambas as empresas valida a força da demanda fundamental por produtos de IA.
O dinheiro que infla o sistema
Se o crescimento é visível, a alavancagem é mais sutil, mas igualmente presente. As gigantes de tecnologia — Alphabet, Meta, Amazon — deixaram de ser geradoras de caixa para se tornarem investidoras massivas em infraestrutura de IA, chegando a queimar caixa. A Alphabet, por exemplo, adicionou quase US$ 500 bilhões em compromissos de gastos futuros “fora do balanço” em apenas três meses, enquanto registrava queima de caixa pela primeira vez em sua história como empresa pública.
Outro pilar da alavancagem são os chamados “financiamentos circulares”. A Nvidia, por exemplo, anunciou um investimento de US$ 1,5 bilhão e uma linha de crédito de US$ 105 bilhões para um data center que, presumivelmente, usará parte dos recursos para comprar chips da própria Nvidia. A fabricante de chips também investiu US$ 30 bilhões na OpenAI, que usará o capital para alugar capacidade computacional. Não se trata de uma prática ilegal, mas de um mecanismo que usa o balanço de uma empresa para financiar a compra de seus próprios produtos, inflando a demanda em todo o ecossistema.
A menos que o boom da IA seja genuinamente diferente de todos os outros, a história tende a terminar da mesma forma. Em algum momento, a oferta de serviços de IA alcançará a demanda, e a alavancagem financeira atingirá seu limite. Esse dia pode estar a anos de distância ou pode já ter chegado. A lição das bolhas passadas é que mesmo os investidores mais experientes raramente acertam o momento da virada. A recomendação, portanto, é a de sempre: investir para aprender e participar da transformação, mas sem apostar mais do que se pode perder.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





