Uma petição online para salvar um curso de humanas raramente vira notícia global. Mas quando quase 6.000 acadêmicos, estudantes e entusiastas de 51 países se mobilizam para defender o departamento de filosofia de uma universidade escocesa, a história muda de figura. Foi o que aconteceu na Universidade de Dundee, que planejava extinguir sua graduação na área para cortar custos.

A reação da comunidade acadêmica internacional foi forte e organizada, forçando a administração a recuar. O resultado, contudo, é uma vitória agridoce, que serve de microcosmo para um debate muito maior sobre o papel das humanidades no século 21. A filosofia em Dundee foi salva, mas com importantes asteriscos.

A Batalha Pelo Pensamento Crítico

A história de Dundee é um sintoma de uma tendência global. Pressionadas por orçamentos apertados e uma visão utilitarista da educação, universidades no Reino Unido e em outros lugares têm colocado as artes e humanidades na mira. A lógica administrativa é fria e, aparentemente, simples: qual o "retorno sobre o investimento" de um curso de filosofia em comparação com um de engenharia de software?

A campanha para salvar o programa em Dundee foi uma resposta direta a essa pergunta. Ao mobilizar apoio de instituições que vão de Harvard a Tóquio e associações filosóficas de todo o mundo, os defensores argumentaram que o valor de um programa como este não se mede em planilhas. Trata-se da defesa de um ecossistema de pensamento crítico que, paradoxalmente, se torna mais necessário em um mundo dominado pela tecnologia.

Uma Sobrevivência Pragmática

A vitória não foi completa. A universidade ainda pretende suspender a graduação pura em filosofia e diversas outras combinações com história e política. Professores seguem sob risco de demissão. O que sobreviveu foi uma versão pragmática do programa: três graduações conjuntas (com Artes, Inglês e Psicologia) e, notavelmente, a aprovação para desenvolver novos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia e Inteligência Artificial.

Essa adaptação estratégica, apoiada por nomes como o filósofo Luciano Floridi, é um aceno aos novos tempos. Para justificar sua existência, a filosofia se alia à mais disruptiva tecnologia da atualidade. A universidade orgulhosamente cita uma de suas graduadas em filosofia, Amanda Askell, como uma das "Pioneiras da IA" na estratégia oficial da Escócia. É a prova de conceito de que o pensamento filosófico tem um lugar na economia digital.

O caso de Dundee deixa uma lição e uma pergunta. A lição é que a resistência organizada, mesmo em pequena escala, pode funcionar. A pergunta é sobre o preço dessa sobrevivência. Ao se justificar por sua utilidade para a indústria de IA, a filosofia não estaria cedendo justamente à lógica de mercado que ameaçou extingui-la em primeiro lugar? A batalha por um departamento foi vencida, mas a guerra pela alma da universidade continua.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Daily Nous