Uma exposição no City Art Centre de Edimburgo, na Escócia, faz um resgate tardio, mas essencial: o da obra de Sandra George, fotógrafa britânica negra que dedicou sua carreira a documentar a vida urbana e operária do país nas décadas de 1980 e 1990. Intitulada "Start from the Level", a mostra é a maior já dedicada ao seu trabalho e, segundo uma análise do portal Hyperallergic, faz um argumento convincente para inseri-la no cânone da fotografia social.

Em vida, George nunca alcançou o reconhecimento do circuito principal. Seu trabalho, no entanto, oferece uma perspectiva rara sobre as consequências da era Thatcher, marcada por privatizações e pelo aumento da desigualdade. A leitura aqui é que a sua própria condição de minoria racial no Reino Unido aguçou sua empatia por outros grupos marginalizados, permitindo-lhe construir uma obra que é o oposto direto da chamada “pornografia da pobreza” — a exploração estética da miséria.

Uma lente de dentro para fora

O trabalho de Sandra George é inerentemente político, não por ser panfletário, mas pela forma como enquadra seus sujeitos. Seja registrando um protesto antinacionalista, uma manifestação pela libertação de Nelson Mandela ou mulheres de diferentes etnias reunidas em um centro comunitário sob o cartaz "Toda Mãe é uma Mãe Trabalhadora", sua lente busca a humanidade compartilhada e a solidariedade.

Como fotojornalista freelancer e agente comunitária, George passava a maior parte do tempo dentro dos espaços que fotografava, tratando as pessoas como iguais. O resultado são imagens que equilibram crueza e dignidade. Crianças que transformam um monte de entulho em um parquinho improvisado sorriem como se tivessem escalado uma montanha; a cena não foca na precariedade, mas na resiliência e na agência dos indivíduos.

O legado de George, que morreu prematuramente em 2013, ressoa com força hoje. Em um de seus cadernos, que funciona como um manifesto, ela anotou: “Pare de fazer suposições sobre as pessoas. Comece do nível em que as pessoas estão”. Num mundo onde a injustiça econômica apenas se intensificou, sua obra serve como um lembrete do poder de uma perspectiva que busca dignidade em vez de espetáculo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic