Um consórcio de autoridades marítimas de 18 países, incluindo potências como Canadá e Reino Unido, emitiu um alerta sobre a consolidação de um sistema de "dois níveis" no transporte oceânico, que ameaça a estabilidade da economia global. A declaração do Consultative Shipping Group (CSG) aponta para uma divisão crescente entre operadores legítimos e uma "frota fantasma" que atua na opacidade.
O diagnóstico, segundo reportagem da revista Fortune, é que essa fratura mina as fundações do comércio mundial. Cerca de 80% a 90% de todas as mercadorias são transportadas por via marítima, um setor que representa mais de 30% do PIB global. A tese é que a proliferação de navios operando fora das regras não é um problema isolado, mas uma tendência que corrói a previsibilidade e a segurança das cadeias de suprimentos.
A anatomia da frota fantasma
A chamada "frota fantasma" é composta por embarcações que ignoram sanções e regulamentações internacionais. Elas operam sem registro de bandeira, utilizam bandeiras falsas para ocultar sua origem ou simplesmente não cumprem normas ambientais e de segurança. Segundo o CSG, esses navios já representam 20% da frota mundial de petroleiros, um número significativo.
As consequências são duplas. Primeiro, cria-se uma concorrência desleal com as empresas que arcam com os custos de operar legalmente. Segundo, e mais grave, o risco ambiental é transferido para a sociedade. Um exemplo citado é o do petroleiro Caroline Bezengi, ligado à frota russa, que vazou óleo na costa de Omã. Sem seguro reconhecido, o custo da limpeza e dos danos ambientais recai sobre os governos locais, criando um passivo sem responsável claro.
Geopolítica como motor da desordem
O fenômeno não é novo, mas foi catalisado por um cenário geopolítico conflagrado. A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e as disrupções no Mar Vermelho, somados a políticas comerciais protecionistas, criaram incentivos para que operadores buscassem rotas e métodos ilícitos para transportar mercadorias, especialmente petróleo sancionado.
Para o CSG, trata-se de uma erosão sistêmica. "Esses eventos recentes [...] minam lentamente um sistema que tem funcionado bem e talvez tenha sido tomado como garantido", afirmou Brian Wessel, presidente do grupo. A resposta, segundo o consórcio, passa por um esforço renovado de fiscalização, maior transparência e cooperação política para fazer valer as leis marítimas internacionais.
O alerta do CSG não é sobre um único incidente, mas sobre o desgaste de uma infraestrutura invisível que sustenta a economia moderna. A questão que permanece é se as nações conseguirão reafirmar um conjunto de regras comuns em um mundo cada vez mais fragmentado, ou se os oceanos se tornarão apenas um reflexo das divisões em terra firme.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





