Um estudo conduzido por pesquisadores do Caltech (California Institute of Technology) revelou um mecanismo de aceleração preocupante na geleira Pine Island, a que mais contribui para o aumento do nível do mar em toda a Antártida. A análise, que utilizou dados de satélite coletados ao longo de nove anos, mostra que o colapso de sua plataforma de gelo flutuante não foi um evento isolado, mas o gatilho para um ciclo vicioso de degelo.

A pesquisa, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, demonstra como a perda de grandes blocos de gelo enfraquece as estruturas que funcionam como um freio natural para as geleiras. A tese central é que essa desestabilização cria um ciclo de retroalimentação: a geleira acelera, o que causa mais danos às suas bordas, o que, por sua vez, a faz acelerar ainda mais. O fenômeno tem implicações diretas para a precisão dos modelos climáticos globais.

O freio que se rompeu

As plataformas de gelo, extensões flutuantes das geleiras continentais, agem como uma espécie de “rolha”, exercendo contrapressão e moderando a velocidade com que o gelo desliza para o oceano. A equipe do Caltech analisou o que aconteceu após um grande evento de desprendimento na Pine Island em 2017. Usando imagens do satélite de radar Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia, eles observaram que a velocidade da geleira aumentou em 20% após a quebra.

O fluxo mais rápido intensificou a pressão sobre as chamadas margens de cisalhamento, as laterais da geleira que geram atrito e resistência. Esse estresse extra provocou novos danos, enfraquecendo ainda mais a capacidade de contenção. “Após esse evento de desprendimento, os danos simplesmente se intensificam”, afirmou Sarah Wells-Moran, autora principal do estudo. Em 2020, a geleira já estava completamente desacoplada das margens danificadas, movendo-se com menos oposição.

Um futuro em revisão

A Pine Island já avança a um ritmo notável de 4,8 quilômetros por ano, mas a descoberta desse ciclo de aceleração sugere que as projeções atuais sobre seu recuo podem ser conservadoras. Entender essa dinâmica é crucial para refinar os modelos que preveem a elevação do nível do mar, um dos impactos mais diretos e custosos das mudanças climáticas para comunidades costeiras em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Embora o estudo forneça um retrato claro do mecanismo em ação, ele não determina a velocidade final ou o cronograma exato do colapso. No entanto, a pesquisa oferece uma base empírica para testar e aprimorar as simulações. Como destacou Brent Minchew, professor de geofísica do Caltech, o comportamento da camada de gelo da Antártida Ocidental é o que separa cenários de elevação “administráveis” de futuros extremos.

O que acontece na Pine Island não fica na Pine Island. A observação desse ponto de inflexão em tempo real serve como um alerta e um modelo para o que pode ocorrer em outras geleiras vulneráveis do planeta. A física do gelo antártico está, cada vez mais, se tornando um fator decisivo na economia e na segurança global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital