Antes de se tornar uma das vozes mais influentes da esquerda americana, o historiador Howard Zinn foi segundo-tenente da Força Aérea dos Estados Unidos. Um jovem patriota que se alistou voluntariamente para combater o fascismo, ele participou de missões de bombardeio sobre a Europa na Segunda Guerra Mundial. Uma delas, no entanto, redefiniria sua vida: o ataque à cidade francesa de Royan, em abril de 1945, menos de três semanas antes do fim oficial do conflito na Europa. A operação, de valor estratégico questionável contra uma guarnição alemã já isolada, matou cerca de três mil civis franceses e apenas 23 soldados inimigos.
Aquele episódio, como detalha um trecho da nova biografia “The People’s Historian”, de Dave Zirin, publicado pelo Lit Hub, foi o catalisador que transformou um soldado idealista em um crítico implacável da guerra. A experiência de Zinn no front não apenas expôs a brutalidade impessoal do combate aéreo, mas também revelou as contradições profundas de uma nação que lutava por liberdade no exterior enquanto praticava a segregação racial em suas próprias fileiras. Foi nesse caldeirão que a visão de mundo de Zinn foi forjada — não nos livros de história, mas a 10 mil pés de altura e nos porões de um navio de tropas.
Do alistado ao cético
Zinn não foi um recruta relutante. Pelo contrário, ele abriu mão de uma isenção que o manteria trabalhando em um estaleiro no Brooklyn para se juntar ao que via como uma “cruzada nobre contra a superioridade racial, o militarismo, o nacionalismo fanático”. Sua motivação era pura: deter o fascismo. Essa convicção, no entanto, começou a ser erodida não pelo inimigo, mas por seus próprios compatriotas. Durante o treinamento e a travessia do Atlântico a bordo do navio Queen Mary, Zinn testemunhou a dura realidade da segregação.
Em um navio com 16 mil homens, os soldados negros eram alojados no porão, perto da ruidosa casa de máquinas, enquanto os brancos ficavam nos deques superiores. A separação se estendia ao refeitório, com os negros comendo por último, recebendo os restos frios da comida. A biografia relata um momento de virada, quando Zinn, já um oficial, confrontou um sargento que gritava com soldados negros por terem entrado no refeitório antes da hora. “Que diabos de guerra é esta, Sargento?”, teria questionado Zinn, verbalizando pela primeira vez a dissonância entre o ideal da guerra e sua prática. A luta contra uma ideologia de supremacia racial parecia hipócrita quando conduzida por um exército racialmente segregado.
O peso impessoal da bomba
O bombardeio de Royan foi o ponto de inflexão moral. Na missão, a tripulação de Zinn utilizou pela primeira vez o que os oficiais descreveram como “gasolina em gel”. Anos mais tarde, durante a Guerra do Vietnã, Zinn entenderia que havia lançado uma das primeiras versões do napalm, uma substância que adere à pele e a queima até os ossos. Da altitude, ele viu as bombas explodirem “como fósforos riscados na névoa”, completamente alheio ao “caos humano abaixo”, como escreveria mais tarde. A impessoalidade do ato o assombraria pelo resto da vida.
Essa inquietação foi alimentada por conversas com outros soldados no front. Um colega bombardeiro, que morreria em combate semanas depois, argumentou que aquela não era uma guerra contra o fascismo, mas “uma guerra por império”. A perda de seus dois amigos mais próximos nos últimos dias do conflito selou a desilusão. A “guerra boa” havia se revelado um banho de sangue que, para Zinn, expunha a falácia de que a violência em massa poderia ser um instrumento limpo para a justiça. Décadas mais tarde, ao visitar Hiroshima, ele refletiria sobre sua participação nos bombardeios e sentiria náuseas. A experiência o ensinou como “é possível cometer atrocidades”.
Em uma pasta onde guardava os poucos registros oficiais de suas missões que conseguiu obter do governo, Zinn escreveu apenas duas palavras: “Nunca Mais”. Não era apenas uma lembrança de Royan ou Hiroshima, mas o fundamento de uma vida dedicada a questionar as narrativas oficiais e a garantir que nenhuma bandeira, por maior que fosse, pudesse cobrir a vergonha de matar inocentes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





