A longa batalha entre a Epic Games e a Apple sobre as regras da App Store escalou para a arena diplomática. Em uma entrevista a jornalistas brasileiros, o CEO da Epic, Tim Sweeney, acusou a Apple de promover lobby junto ao governo dos Estados Unidos para minar as relações com o Brasil. A alegação, feita sem provas, foi repercutida pela Folha de S. Paulo e pelo site Mac Magazine.

A acusação transforma uma disputa comercial sobre taxas e concorrência em uma questão de soberania e relações internacionais. Sweeney conecta a suposta pressão da Apple em Washington a uma retaliação pelas novas regras que o Brasil impôs ao ecossistema iOS, forçando uma maior abertura. A Apple nega veementemente, classificando as declarações como "falsas".

A diplomacia como arma

A estratégia de Tim Sweeney é clara: enquadrar a Apple não apenas como um monopólio comercial, mas como um ator hostil aos interesses do Brasil no cenário global. Ao sugerir que a empresa estaria por trás de ameaças de novas tarifas americanas ao país, Sweeney tenta galvanizar a opinião pública e o poder político brasileiro contra a gigante de Cupertino. É uma jogada retórica de alto risco, que eleva a temperatura do debate para além das cortes e dos órgãos de defesa da concorrência.

Do outro lado, a Apple se defende citando o acordo recente com o Cade para abrir seu ecossistema no Brasil como prova de sua colaboração. A realidade, contudo, é que a linha entre lobby corporativo legítimo e interferência indevida é tênue. Embora seja um salto atribuir políticas comerciais complexas exclusivamente à influência de uma única empresa, a acusação de Sweeney joga luz sobre o imenso poder que as Big Techs exercem nos corredores do poder.

O campo de batalha regulatório

O pano de fundo para esta escalada é a frustração da Epic com o que considera uma "conformidade maliciosa" da Apple às novas regulações. Sweeney critica as exigências da Apple, como a instalação de sistemas para rastrear transações feitas fora da App Store — que ele chama de "spyware" — como barreiras projetadas para tornar a concorrência inviável na prática. O lançamento limitado da Epic Games Store no Brasil, com apenas dois aplicativos próprios, serve como um protesto visível contra essas barreiras.

A Epic já sinalizou que levará essas queixas ao Cade, buscando uma aplicação da lei mais rigorosa, nos moldes do que a União Europeia tem feito com o Digital Markets Act. A acusação de sabotagem diplomática, portanto, funciona como uma ferramenta de pressão adicional, um recado de que a disputa não se limitará mais aos termos técnicos do antitruste.

A fronteira entre o poder corporativo e a soberania nacional está cada vez mais porosa. A alegação de Sweeney, factual ou não, força uma reflexão sobre a influência que gigantes de tecnologia podem exercer nas relações entre países. A resposta do Cade e do governo brasileiro a essa nova fase do conflito será um importante precedente sobre até onde vai o poder de uma empresa e onde começa o interesse de um Estado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Mac Magazine