A adoção de inteligência artificial em grandes empresas não está seguindo o manual da consolidação. Pelo contrário, a fragmentação é a norma. Uma pesquisa com mais de 100 companhias revela que a empresa média já utiliza três plataformas de orquestração de agentes de IA simultaneamente, com 85% usando ao menos duas. Os nomes são os esperados: soluções da Microsoft, OpenAI e Anthropic dominam os ambientes de produção.

O ponto central, no entanto, não é a busca por flexibilidade ou a aversão ao tradicional aprisionamento tecnológico (vendor lock-in). A leitura aqui é que a estratégia é defensiva, nascida de uma desconfiança fundamental nas capacidades de segurança e controle dos próprios fornecedores. O resultado é um cenário complexo onde, segundo a reportagem da VentureBeat, uma em cada cinco empresas admite não conseguir interromper em tempo real os gastos de um agente de IA que opera fora dos parâmetros esperados — um cheque em branco para a tecnologia.

Do lock-in ao caos controlado

A memória da primeira onda da computação em nuvem, que prendeu clientes a ecossistemas como AWS e Azure, parece ter ensinado uma lição. As empresas agora evitam apostar todas as fichas em um único provedor de IA. A pesquisa mostra que mais de dois terços planejam trocar de plataforma no próximo ano, com a Claude, da Anthropic, e soluções customizadas liderando as novas avaliações. Essa alta rotatividade sinaliza um mercado ainda imaturo e em busca de um padrão.

Essa abordagem híbrida, no entanto, tem um custo. Ao invés de confiar nos painéis de controle dos fornecedores, as companhias estão sendo forçadas a investir na criação de suas próprias camadas de governança. A prioridade não é mais ter acesso ao modelo mais avançado, mas garantir que sua execução seja auditável e segura. A compra de tecnologia de IA passou a ser guiada por segurança (17%), confiabilidade (15%) e controle (15%), fatores que superam a simples qualidade do modelo (10%).

Onde o dinheiro realmente está indo

Essa mudança de prioridade se reflete diretamente na alocação de orçamento. Os maiores investimentos agora são direcionados para monitoramento e depuração de agentes (31%) e para a implementação de políticas de segurança e permissões (30%). Ferramentas de fluxo de trabalho, que antes lideravam os gastos, ficaram em segundo plano. O foco das equipes de tecnologia está em garantir a confiabilidade na conclusão de tarefas e o gerenciamento de processos complexos com múltiplos passos.

A experiência do usuário final, curiosamente, aparece no fim da lista de prioridades, com apenas 7% das menções. A mensagem é clara: antes de entregar uma interface amigável, as empresas precisam garantir que a infraestrutura por trás dela não vaze dados ou queime caixa descontroladamente. A fase atual é sobre construir a fundação e a governança, não sobre decorar a fachada.

O cenário atual da IA corporativa é um exercício de equilíbrio. As empresas navegam entre a velocidade da inovação e a necessidade de controle operacional. A anarquia de plataformas é, por enquanto, um mal necessário para manter a soberania sobre a tecnologia — e sobre os custos que ela pode gerar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · VentureBeat