Enquanto data centers no Texas projetam consumir bilhões de galões de água em meio a uma seca histórica, os ingressos para shows da Live Nation batem recordes de preço e demanda. Os dois fatos, aparentemente desconexos, são a mesma história contada de pontas diferentes, como aponta uma análise recente da revista Fortune. A era da inteligência artificial não aboliu a escassez; apenas a realocou para lugares mais difíceis de medir e, crescentemente, de controlar.

A tese é que o valor está migrando para baixo na cadeia, para os insumos físicos que a IA consome vorazmente (energia, água, computação), e para cima, para os momentos humanos que ela não consegue reproduzir (confiança, experiência ao vivo, julgamento). Para a maioria das equipes executivas, focadas em otimizar custos e acelerar a produção, essa é uma pergunta incômoda: quando tudo que você produz se torna abundante, o que se torna escasso? E você ainda é dono de alguma parte disso?

A cortina de fumaça da abundância

O mercado de freelancers oferece um microcosmo dessa dinâmica. Com a chegada do ChatGPT, a demanda por tarefas como tradução e redação de textos padronizados despencou. Uma análise de uma plataforma global de freelancers mostrou que, em meses, a procura por traduções para idiomas europeus caiu cerca de 30%, enquanto a redação de páginas institucionais, como "Sobre Nós", foi reduzida pela metade. O trabalho não piorou; tornou-se abundante. E a abundância, não a incompetência, destruiu seu preço.

O que se tornou abundante é o output, não as condições que o tornam útil. Gerar uma resposta é quase gratuito; garantir que a resposta está correta e ser responsável por ela ainda é um trabalho árduo e caro. O ingrediente escasso nunca foi o "texto competente", mas o que ele representava: o julgamento, a responsabilidade e a certeza de que um profissional endossava aquelas palavras. Como o economista Herbert Simon previu em 1971, a abundância de informação produz uma escassez de atenção. O que era um insight acadêmico é hoje a condição operacional de indústrias inteiras.

Onde a escassez se esconde

Na economia industrial, a escassez era visível: inventário, assentos, horas de engenharia. Na economia da IA, ela se torna difusa, quase invisível. Esconde-se em uma fila de processamento de computação, na latência de um sistema ou em uma restrição legal. A demanda por eletricidade em data centers deve dobrar até 2030, e a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que, ao final da década, os data centers nos EUA consumirão mais eletricidade do que as indústrias de alumínio, aço, cimento e produtos químicos somadas.

Os gargalos, portanto, não são mais talento ou capital. São conexões à rede elétrica, turbinas a gás, transformadores e até mesmo o gálio, metal cujo refino é 99% controlado pela China. A empresa que se parabeniza por ter um custo marginal próximo de zero, na prática, apenas transferiu a margem durável para quem controla o insumo escasso. Do lado da demanda, a lógica é a mesma: quando todos podem gerar a mesma oferta, o que se torna escasso é a atenção do cliente. Quem controla esse ponto de atenção — o canal, o assistente — detém o valor. Todos os outros competem na camada da abundância.

O preço, nesse novo cenário, deixa de indicar "quanto sobrou" e passa a sinalizar "o que importa". Um preço premium não reflete mais apenas um custo de produção elevado; ele revela uma escassez subjacente, como acesso prioritário, menor exposição ao risco ou a garantia de auditabilidade que permite a um engenheiro assinar um projeto. A precificação torna-se um ato estratégico, não aritmético.

As empresas que entendem essa transição não perguntam apenas o que a IA permite produzir em maior quantidade. Elas sabem dizer claramente o que, em seu negócio, tornou-se abundante e o que se tornou raro. A disciplina estratégica agora exige um mapa da escassez: identificar o que a empresa está tornando abundante, onde isso cria um gargalo, quem o controla e se o preço reflete essa nova realidade. O valor não será capturado por quem produz mais, mas por quem nomeia, controla e precifica a nova escassez.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune