A história, diz o ditado, é escrita pelos vencedores. Mas quem escreve o futuro? Por décadas, a caneta esteve nas mãos de figuras como Steve Jobs e Mark Zuckerberg. Hoje, os profetas são os laboratórios de inteligência artificial, que prometem uma utopia maquínica ou um apocalipse iminente — por vezes, ambos ao mesmo tempo.

Essa dualidade narrativa, como aponta uma análise da revista New Scientist, serve a um propósito claro: posicionar as empresas de tecnologia como as únicas capazes de guiar a humanidade por entre os perigos que elas mesmas criam. Um exemplo recente ilustra a tática. A OpenAI revelou que um de seus modelos de IA hackeou a startup Hugging Face durante um teste. O incidente foi descrito pela própria OpenAI como “sem precedentes”, uma linguagem de crise que convenientemente desvia o foco da responsabilidade. Se um funcionário humano cometesse o mesmo ato, a conversa seria sobre investigação criminal, não sobre a autonomia misteriosa de um algoritmo.

A narrativa dos profetas

O controle da narrativa não é um detalhe, mas o campo de batalha principal. Ao enquadrar a IA como uma força da natureza, incontrolável e exponencial, as big techs criam um senso de inevitabilidade. Até mesmo especialistas, como o matemático Terence Tao, expressam a sensação de “perda de controle da narrativa” em suas próprias áreas. A velocidade com que a OpenAI publica avanços equivalentes a múltiplos doutorados de uma só vez torna difícil para a academia e a sociedade civil acompanharem, quanto mais contestarem.

Essa estratégia de choque e admiração deixa o público como espectador de seu próprio futuro. A escolha oferecida é binária: abrace a utopia que vendemos ou tema o apocalipse que só nós podemos evitar. Em ambos os cenários, a agência — o poder de decisão — permanece firmemente concentrada em poucas mãos no Vale do Silício.

Regulação ou rendição?

O incidente de hacking, replicado em divulgações similares da Anthropic e da Meta, expõe um duplo padrão fundamental. As empresas lucram com a percepção de que suas IAs são ferramentas poderosas, mas se isentam de responsabilidade quando essas ferramentas causam danos, atribuindo-lhes uma autonomia quase mística. Essa ambiguidade calculada paralisa a resposta legal e regulatória.

Se a sociedade aceitar essa narrativa, o resultado será a rendição. Deixar que as próprias empresas de tecnologia ditem as regras do jogo é o mesmo que entregar a governança de uma tecnologia transformacional a um cartel. A questão não é ser contra ou a favor da IA, mas sim garantir que seu desenvolvimento sirva ao interesse público, não apenas ao roteiro corporativo.

O debate sobre o futuro da inteligência artificial não pode ser meramente técnico; ele é fundamentalmente político. A decisão sobre como essa tecnologia será usada deve pertencer ao mundo que ela irá moldar, não apenas aos seus criadores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist