A fiscalização de trânsito em São Paulo entrou em uma nova fase. Desde 1º de julho, radares equipados com inteligência artificial estão multando motoristas nos trechos Sul e Leste do Rodoanel, uma operação da concessionária SPMar. O alvo são infrações comportamentais, como o uso de celular ao volante e a falta do cinto de segurança, que câmeras tradicionais têm dificuldade em capturar.
Os resultados de um projeto piloto, que em 49 dias flagrou mais de 7 mil infrações com um único aparelho, validaram a tecnologia. A leitura, no entanto, vai além da eficiência arrecadatória ou da segurança viária. O movimento sinaliza a consolidação de um modelo de governança urbana automatizada, cujas implicações sobre privacidade e direitos individuais apenas começam a ser debatidas.
A governança do algoritmo
Por enquanto, o processo não é 100% automático. Segundo a reportagem do Canaltech, a IA identifica a potencial infração, mas a imagem é remetida a um agente de trânsito, que faz a validação final antes da emissão da multa. Imagens inconclusivas são descartadas. Este modelo híbrido funciona como uma salvaguarda contra erros algorítmicos e, talvez mais importante, contra uma reação pública negativa.
A questão que se impõe é sobre a sustentabilidade e a transparência desse modelo. Quem audita os algoritmos e os critérios de validação dos agentes humanos? À medida que a tecnologia se torna mais precisa, a tentação de remover o componente humano para ganhar escala e reduzir custos será enorme. A concessionária, na prática, opera uma infraestrutura de vigilância e processamento de dados em massa, um papel que transcende a mera manutenção de uma rodovia.
Vigilância como serviço
O projeto da SPMar não é um caso isolado, mas a ponta de lança de uma tendência. A concessionária planeja expandir a rede para 82 radares com IA até o fim do ano e 120 até 2027. Outras vias importantes, como os sistemas Anchieta-Imigrantes e Raposo Tavares, além de estradas em Minas Gerais, já adotam tecnologias similares. Estamos testemunhando a criação de uma malha de monitoramento inteligente em tempo real.
O discurso oficial, como o de Andrew Aquino citado pela fonte, foca em “influenciar o comportamento” para aumentar a segurança. A frase é sintomática: o objetivo não é apenas punir a infração, mas modular a conduta do cidadão. A infraestrutura de vigilância que está sendo montada para coibir o uso do celular hoje poderá, amanhã, ser usada para monitorar outros comportamentos, com finalidades que ainda nem imaginamos.
A discussão imediata se concentra na legalidade e na eficácia das novas multas. O debate de fundo, contudo, é sobre o tipo de cidade que essa tecnologia constrói — uma em que a vigilância é constante, automatizada e operada por uma parceria público-privada cujo apetite por dados só tende a crescer.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Canaltech





