Em meio a uma severa escassez de mão de obra no setor de logística americano, impulsionada pelo crescimento do e-commerce, uma empresa de Indiana está adotando uma estratégia que une inclusão e pragmatismo. A Bosma Enterprises está equipando trabalhadores com deficiência visual com drones autônomos e óculos de realidade aumentada da Meta para executar tarefas complexas de gestão de estoque.

O movimento, detalhado em reportagem do Business Insider, é mais do que um caso de uso de tecnologia assistiva. É uma resposta direta a um problema de negócio: em junho de 2023, havia quase 400 mil vagas abertas nos setores de transporte e armazenagem nos EUA. A tese da Bosma é que um vasto contingente de talentos está sendo ignorado não por falta de capacidade, mas por preconceito.

Tecnologia como extensão sensorial

No centro da operação estão duas tecnologias-chave. A primeira é a plataforma da Gather AI, que utiliza drones para sobrevoar autonomamente o armazém, fotografar o estoque e usar inteligência artificial para converter as imagens em dados, comparando-os com os registros do sistema. A interface é integrada a leitores de tela em iPads, permitindo que um operador com deficiência visual gerencie um processo que, manualmente, levaria dias e agora é concluído em minutos.

A segunda é o uso dos óculos inteligentes da Meta. Eric Knight, gerente de manufatura na Bosma, pode simplesmente perguntar “Hey Meta, o que está na minha frente?” para que o dispositivo leia códigos de barras ou resuma documentos. Os óculos também oferecem uma visão de IA ao vivo, descrevendo o ambiente e alertando para obstáculos como empilhadeiras ou paletes, o que aumenta não só a eficiência, mas a segurança e a confiança do funcionário no chão de fábrica.

Para além da ferramenta, a mentalidade

Para Jeff Mittman, CEO da Bosma e ele mesmo um veterano que perdeu a visão, o maior desafio para empregar pessoas com deficiência visual não é mais a tecnologia, mas “a percepção dos outros sobre suas capacidades”. A estratégia da companhia é deliberadamente focada em fornecer aos seus funcionários habilidades que sejam transferíveis para qualquer outra empresa, e não apenas adaptadas a um ambiente protegido.

Isso contrasta com a abordagem de muitas empresas que, segundo a reportagem, buscam soluções de software de curto prazo em vez de investir no desenvolvimento da força de trabalho disponível. A Bosma atua ativamente para quebrar essa barreira, demonstrando a tecnologia para potenciais empregadores quando um de seus funcionários se realoca. O resultado, segundo Mittman, é o acesso a uma força de trabalho “muito leal, uma vez que encontra um trabalho que funciona para ela”.

O caso da Bosma oferece um contraponto poderoso à narrativa dominante de que a IA vem para eliminar postos de trabalho. Aqui, a tecnologia não substitui o humano, mas o capacita, abrindo portas para um grupo historicamente marginalizado do mercado de trabalho. A lição parece ser que o futuro do trabalho depende menos da ferramenta em si e mais da imaginação para aplicá-la de forma inclusiva e estratégica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider