A Neuramill, uma startup fundada por dois engenheiros na casa dos 20 anos, está desenvolvendo um software para capturar e aplicar o conhecimento de maquinistas experientes, especialmente nos setores aeroespacial e de defesa. O problema que a empresa ataca é geracional: com a aposentadoria iminente de profissionais que passaram décadas no chão de fábrica, um conhecimento tácito — quase intuitivo — sobre como usinar peças complexas corre o risco de desaparecer.
A tese da Neuramill é que a inteligência artificial pode servir como uma ponte, digitalizando essa expertise para as novas gerações e processos. A abordagem não é substituir o humano, mas aumentar sua capacidade. Segundo reportagem da publicação americana GeekWire, a empresa já fechou um contrato de seis dígitos com um grande fornecedor do setor de defesa e tem como parceiros de design empresas como a fabricante de satélites Astranis.
A digitalização do conhecimento tácito
O grande desafio da manufatura de alta precisão é que muito do conhecimento crítico não está em manuais. Ele reside na experiência do operador, que, segundo os fundadores da Neuramill, parece realizar uma “simulação de física em tempo real” mentalmente ao planejar um trabalho. É esse “feeling” que o software da startup busca decodificar.
A plataforma funciona como uma “camada de inteligência” que lê um arquivo de design e propõe um plano de produção: quais ferramentas, em que máquinas e em qual ordem. Crucialmente, cada plano é revisado e aprovado por um maquinista antes de ir para a produção, mantendo o especialista no centro do processo.
Entre a Boeing e o Vale do Silício
O perfil dos fundadores reflete essa dualidade. A CEO Nistha Mitra, 26, é cientista de computação com passagem pela área de IA da Oracle. O COO Nick Khormaei, 24, é engenheiro e trabalhou na Boeing e na SpaceX. Essa combinação de software e indústria pesada informa a estratégia da empresa, que não busca competir com gigantes de software de manufatura como Siemens e Mastercam, mas se integrar a elas. A Neuramill, inclusive, faz parte do programa de parceiros da Siemens.
Com uma equipe enxuta de seis pessoas, a startup levantou uma rodada de capital semente de valor não revelado de fundos como Ascend e Breakwater Ventures. A visão de longo prazo é criar um “modelo de mundo” para a manufatura, um sistema que possa raciocinar sobre geometria, materiais e comportamento de máquinas.
Ainda assim, a CEO insiste na centralidade do fator humano. “Há uma beleza no ofício da manufatura que devemos respeitar”, disse Mitra ao GeekWire. “Existem lugares onde os humanos não devem ser extraídos de uma indústria, e acho que a manufatura é um deles.” A mensagem é clara: a tecnologia serve para preservar o ofício, não para eliminá-lo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · GeekWire





