As exportações da China, motor da segunda maior economia do mundo, voltaram a surpreender. Em julho, o crescimento foi de 23,9% em relação ao ano anterior, superando as previsões de mercado. A força motriz, segundo dados da alfândega chinesa reportados pela Reuters, tem nome e sobrenome: a corrida global pela infraestrutura de inteligência artificial.
A demanda por produtos de alta tecnologia, especialmente semicondutores, está sustentando o crescimento chinês em um momento de fraqueza no consumo interno e desaceleração nos investimentos. A leitura, contudo, não é de otimismo irrestrito. O boom da IA expõe uma economia cada vez mais dividida e coloca Pequim em rota de colisão com seus maiores parceiros comerciais.
Uma economia em 'K'
Os dados de exportação revelam duas Chinas. De um lado, uma potência tecnológica em plena aceleração. Nos primeiros sete meses do ano, as exportações de produtos de alta tecnologia cresceram 40,7%, com as vendas de chips quase dobrando de valor. É o lado ascendente da recuperação em 'K', onde fabricantes de ponta capitalizam uma demanda global insaciável por hardware de IA.
Do outro lado, a base industrial tradicional patina. As exportações de cerâmica, por exemplo, caíram 28,3% no mesmo período, enquanto as de brinquedos recuaram 9,7%. Essa divergência ilustra como o crescimento chinês se tornou dependente de um único e volátil setor, enquanto as indústrias que empregam massivamente enfrentam dificuldades, um reflexo da demanda interna que não reage.
O dilema de Pequim
O sucesso exportador gera um efeito colateral imediato: o aprofundamento do atrito geopolítico. O superávit comercial da China caminha para ultrapassar US$ 1 trilhão pelo segundo ano consecutivo, um volume que parceiros como Estados Unidos e União Europeia consideram desestabilizador para suas próprias indústrias. A reação já se materializa em novas tarifas e barreiras, como as recentemente impostas por Washington a produtos de polissilício e robôs.
Internamente, a resiliência das exportações cria um dilema para os formuladores de políticas em Pequim. Enquanto as fábricas de alta tecnologia operarem a todo vapor e ajudarem a economia a atingir a meta de crescimento, a urgência de implementar reformas estruturais para estimular o consumo das famílias e resolver a crise do setor imobiliário diminui. É uma aposta arriscada: usar um motor externo para adiar soluções para problemas domésticos crônicos.
A China surfa a onda da IA para manter seu modelo econômico funcionando, mas essa mesma onda a empurra para águas turbulentas. O desafio de Pequim é equilibrar o sucesso de curto prazo com a necessidade de uma economia mais balanceada e sustentável, antes que a maré de tensões comerciais e desigualdades internas se torne incontrolável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





