Dez jaquetas. Quase quatro mil dólares cada. Feitas com o mesmo material de trajes de proteção química e embaladas como um videogame antigo. Este não é o início de um romance distópico, mas o mais recente lançamento da Vollebak, o laboratório experimental que insiste em chamar suas criações de “roupas”.

A peça em questão, batizada de FWAHBL (uma sigla para “Quando o Inferno Desabar”), é um trench coat amarelo-alerta, construído com borracha de policloropreno de dupla face, um tecido desenvolvido pela Fothergill — fornecedora de equipamentos de proteção para militares desde 1847 — para resistir a chamas, produtos químicos e intempéries. É um feito de engenharia têxtil, sem dúvida. Mas a Vollebak não está vendendo apenas um casaco durável. Está vendendo um ingresso para uma narrativa.

O luxo da sobrevivência

O que transforma a jaqueta de um simples item de vestuário em um objeto de estudo é o ecossistema ao seu redor. Cada peça vem com uma história em quadrinhos no estilo Marvel e um trailer cinematográfico, com um jogo em desenvolvimento. A Vollebak não cria moda; ela constrói mundos. A jaqueta é um artefato colecionável de um futuro imaginado, um item que borra as fronteiras entre vestuário funcional, entretenimento e arte conceitual.

Nesse contexto, o preço de US$ 3.995 e a tiragem de 10 unidades fazem sentido. Não se trata de um produto de massa, mas de um totem para uma tribo específica. Uma que entende que a verdadeira proposta de valor não está na proteção contra um apocalipse literal, mas no conforto psicológico que um objeto de “preparação extrema” oferece. É a monetização da “ansiedade existencial”, como a própria marca admite, transformada em um item de luxo.

Em uma indústria obcecada com o efêmero, a Vollebak propõe uma forma radical de sustentabilidade: a durabilidade quase infinita. Suas roupas são projetadas para durar séculos, não estações. A questão que a jaqueta FWAHBL deixa no ar não é se ela sobreviveria ao fim do mundo, mas o que sua existência como um produto de desejo diz sobre o mundo em que já vivemos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast