O designer londrino Paddy Pike revelou sua mais nova coleção, a Figulus: uma linha de móveis esculturais feitos de rocha de lava extraída das encostas do Monte Vesúvio, na Itália. As peças, com suas formas fluidas e infladas, são o resultado de um processo que combina um dos materiais mais antigos da Terra com as mais recentes ferramentas de design digital.
Segundo reportagem da publicação Hypebeast, o projeto representa uma fusão deliberada entre o ancestral e o contemporâneo. A leitura aqui não é a de uma simples novidade estética, mas de uma tese sobre o futuro do design. Pike utiliza modelagem em realidade virtual (VR) e renderização assistida por inteligência artificial (IA) para conceber as formas, que são então fabricadas por artesãos italianos especializados em rocha vulcânica. O resultado é um objeto que carrega tanto o peso da história geológica quanto a leveza da ideação digital.
A matéria e o metaverso
A escolha do material é central para a narrativa da coleção. Pike estabeleceu uma parceria com a Ranieri, uma empresa familiar que opera aos pés do Vesúvio, o vulcão cuja erupção em 79 d.C. soterrou a cidade de Pompeia. A rocha de lava, um material raramente usado em mobiliário, recebe um acabamento esmaltado e é queimada em fornos, um processo que ecoa a origem ígnea da própria matéria-prima. Essa dualidade do fogo — destrutivo na erupção, criativo no artesanato — é um pilar conceitual do trabalho.
O processo de design, por sua vez, acontece em um plano totalmente distinto. Com formação em engenharia mecânica, Pike adota uma abordagem metódica, utilizando softwares de VR como o Gravity Sketch para esculpir suas ideias em um ambiente de “argila digital”. Ele descreve a experiência como imersiva, um espaço onde pode manipular, esticar e duplicar formas com uma fluidez impossível no mundo físico. Essa liberdade digital, contudo, é constantemente confrontada com as limitações do mundo real, como o tamanho dos fornos da fábrica italiana, cujas restrições se tornam visíveis nas linhas horizontais que marcam as peças finais — uma cicatriz do processo que Pike faz questão de exibir.
A IA como ferramenta, não como autor
O uso de inteligência artificial generativa por Pike é igualmente pragmático. Ele utiliza a tecnologia abertamente para criar renderizações ultrarrealistas de seus conceitos, compartilhando-as em suas redes sociais. Para o designer, a IA não é um substituto para a criatividade, mas uma ferramenta no mesmo patamar de um lápis ou de um software de modelagem 3D. “Vi o enorme benefício que teve no meu trabalho porque pude mostrar aos clientes imagens muito realistas de trabalhos que vou fazer”, afirmou ele à Hypebeast.
O ponto crucial em sua filosofia é a responsabilidade de não “perder o contato com a realidade da criação de uma peça”. A IA acelera a visualização e a comunicação com clientes, mas o designer permanece como o curador final, garantindo que as imagens digitais sejam fiéis ao que pode ser fisicamente produzido. O trabalho de Pike sugere um caminho para a integração de novas tecnologias sem a abdicação do controle humano ou do valor do artesanato. É uma colaboração, não uma substituição, onde a tecnologia serve para refinar e comunicar uma visão que ainda é profundamente humana e material.
A coleção Figulus se posiciona, assim, em um interessante ponto de equilíbrio. Ela explora o potencial de ferramentas como VR e IA, mas o faz com um respeito profundo pela materialidade e pela habilidade manual. O trabalho de Paddy Pike não oferece uma visão utópica ou distópica sobre o futuro do design, mas um exemplo prático de como a engenhosidade humana pode usar o digital para dialogar de forma mais profunda com o mundo físico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hypebeast





