Donald Trump está, temporariamente, abrindo o mercado americano a mais importações de carne bovina. Nos próximos três meses, até 300 mil toneladas do produto poderão entrar no país sem as tarifas usuais, numa tentativa de frear a escalada de preços do hambúrguer para o consumidor. Segundo o ex-presidente, o acordo prevê que a carne importada seja vendida 25% abaixo dos valores atuais.

O movimento, reportado pela revista Fortune, representa um notável recuo na lógica protecionista que tem sido uma marca registrada de Trump. A decisão de usar oferta estrangeira para pressionar os preços para baixo expõe a contradição fundamental de sua política comercial: as tarifas, vendidas como uma proteção à indústria nacional, funcionam na prática como um imposto direto sobre os consumidores, especialmente quando a oferta doméstica é insuficiente.

A dobra protecionista

A medida coloca em xeque o pilar do discurso de Trump, que por anos argumentou que as barreiras comerciais protegeriam os produtores americanos. Agora, diante de preços da carne que subiram quase 60% em cinco anos e de um rebanho bovino no menor nível desde a década de 1950, a administração recorre ao inimigo retórico — o produto importado — para acalmar o eleitorado.

A reação dos produtores locais foi imediata. A National Cattleman’s Beef Association, principal entidade do setor, criticou a decisão por "inundar o mercado com produtos estrangeiros subsidiados". Para eles, a medida sacrifica a estabilidade de longo prazo e desincentiva a recuperação do rebanho americano em troca de uma mensagem política de curto prazo.

O fator Brasil

A reviravolta se torna ainda mais irônica quando se olha para os alvos das tarifas de Trump. O Brasil, um dos maiores produtores de carne do mundo e fonte relevante de importações para os EUA, é um dos países afetados por uma tarifa de 25% sobre certos bens. A suspensão temporária, mesmo que limitada, ilustra a dificuldade de sustentar uma guerra comercial contra fornecedores eficientes quando a demanda interna não é atendida.

O episódio da carne funciona como uma aula prática de economia, como observou o economista Steve Hanke à Fortune. Quando a oferta doméstica encolhe, seja por secas ou outros fatores estruturais, as tarifas sobre importações apenas amplificam a inflação. A leitura aqui é que a escolha se torna inevitável: manter a ideologia protecionista ou aliviar o bolso do consumidor.

A decisão, ditada pela realidade do preço na gôndola do supermercado, pode ser um sinal de outros ajustes pragmáticos pela frente. Resta saber até que ponto a retórica nacionalista resiste ao contato com as necessidades econômicas mais básicas, especialmente em um ano eleitoral.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune