Para a Light, a energia que chega à tomada é apenas o ponto de partida. A centenária distribuidora de energia do Rio de Janeiro está articulando uma narrativa que a posiciona não apenas como uma utility de infraestrutura, mas como um vetor de desenvolvimento cultural, econômico e social. A tese foi detalhada por Giovanna Curty, Diretora Adjunta de Comunicação e Sustentabilidade da companhia, em um podcast da MIT Technology Review Brasil.
A conversa parte de uma constatação histórica: a chegada da eletricidade foi fundamental para moldar a identidade carioca. A expansão da iluminação pública e dos bondes elétricos no início do século XX permitiu o florescimento da vida noturna, das rodas de samba e da ocupação cultural que definem a cidade até hoje. A leitura é que a energia nunca foi apenas um serviço, mas uma plataforma para a vida urbana.
Da boemia ao bit
Hoje, essa visão se traduz em iniciativas que buscam reconstruir a relação da empresa com o território. Curty cita projetos como a Orquestra Light da Rocinha e ações de empreendedorismo, que partem de uma escuta sobre as vocações econômicas de cada comunidade. O movimento é parte de uma transformação interna que visa recuperar o orgulho dos colaboradores e a confiança da população na marca, onde cada funcionário é visto como um embaixador da reputação da companhia.
O esforço de se conectar com o passado e o presente cultural da cidade ocorre em paralelo à preparação para o futuro. A Light mapeia um horizonte de desafios complexos, que vão da crescente demanda energética impulsionada por data centers e inteligência artificial até a necessidade de ampliar a resiliência da rede. Segundo a executiva, um plano de investimentos robusto está em curso para preparar a infraestrutura do Rio para um novo ciclo de crescimento.
A conta que não fecha
No entanto, a modernização da rede é apenas uma parte da equação. A empresa lida com problemas estruturais crônicos, como o furto de energia e a dificuldade de inclusão energética em comunidades de baixa renda. Para Curty, a solução não virá apenas da iniciativa privada. Ela defende a necessidade de políticas públicas que considerem as distintas realidades climáticas e sociais do Brasil para integrar formalmente mais pessoas ao sistema elétrico com acesso a um serviço de qualidade.
A mensagem final é que desafios desta magnitude exigem uma governança compartilhada. A recuperação da Light e a modernização energética do Rio de Janeiro dependem de uma colaboração entre governo, setor privado e sociedade civil. Para uma empresa cuja história se confunde com a da própria cidade, o futuro parece ser menos sobre postes e fios e mais sobre a construção de pontes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Tech Review Brasil





