Noah Cyrus lançou seu segundo álbum, “I Want My Loved Ones To Go With Me”, consolidando um marco em uma jornada de quase uma década. Mais do que um novo trabalho, o disco representa a maturação de uma artista que passou a vida sob o peso de um sobrenome famoso e da comparação inevitável com a irmã, a estrela global Miley Cyrus, e o pai, o ícone country Billy Ray Cyrus. Uma reportagem recente da publicação Highsnobiety traça um perfil da artista de 26 anos, detalhando a construção de sua voz singular.

O que emerge não é a história de uma herdeira musical, mas a de uma “azarona”, como define a publicação. Alguém que, apesar dos privilégios, travou uma batalha pública e interna para forjar uma identidade própria. A tese é que a música de Noah Cyrus — uma mistura de indie folk, Americana e pop com letras confessionais sobre saúde mental, vícios e luto — é o resultado direto dessa luta. Ela não está apenas fazendo música; está escrevendo seu próprio roteiro, longe da sombra projetada por sua família.

A sombra e a voz

Crescer sob os holofotes do Disney Channel, onde Miley se tornou um ícone como Hannah Montana, foi um ambiente de dupla face. Noah Cyrus descreve uma infância e adolescência marcadas pela ansiedade, dismorfia corporal e depressão, exacerbadas pela atenção da mídia e críticas online. Seus primeiros passos na música, com o EP “Good Cry” (2018), flertavam com um emo-pop que parecia tentar encontrar um lugar no mercado, mas ainda soava como um eco de outras tendências.

A virada começou com o EP “The End of Everything” (2020), que lhe rendeu uma indicação ao Grammy de Artista Revelação. O single de platina “July” apontava para uma sonoridade mais orgânica e enraizada. Esse movimento coincidiu com um período de crise pessoal, incluindo uma recuperação de um vício em Xanax que a levou a desmaiar durante uma entrevista na TV. Seu álbum de estreia, “The Hardest Part” (2022), e o novo “I Want My Loved Ones To Go With Me”, são crônicas dessa reconstrução, transformando o trauma em matéria-prima artística.

O som da autenticidade

Produzido novamente por Mike Crossey (conhecido por trabalhos com The 1975 e Arctic Monkeys), o novo álbum aprofunda a imersão de Cyrus em suas raízes country e folk, mas com um filtro indie e contemporâneo. As letras são diretas e, por vezes, brutais, abordando temas como luto antecipado e relacionamentos tóxicos. A artista, que também foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline, usa a composição como um veículo para processar uma realidade complexa, uma qualidade que seu amigo de infância, Franklin Jonas, descreve como uma “empatia radical”.

O que talvez melhor sele a legitimidade de seu caminho são as colaborações. Em vez de buscar nomes óbvios do pop, Cyrus atraiu um grupo eclético de admiradores. Ela já gravou com o astro do country Blake Shelton, convidou Robin Pecknold do Fleet Foxes para uma faixa e, mais notavelmente, desenvolveu uma parceria com o ícone do indie rock Bill Callahan. Segundo a reportagem, Callahan, ao ser perguntado com quem gostaria de compor, nomeou Noah Cyrus. A surpresa e validação desse momento para a artista é um símbolo de sua chegada a um lugar de respeito, conquistado por seu próprio mérito.

Sua trajetória demonstra que, mesmo partindo de uma posição de privilégio, a busca por uma voz autêntica pode ser um caminho árduo. A carreira de Noah Cyrus hoje não é definida por quem ela é parente, mas pelo som que ela criou. Um som que reflete a complexidade de quem lutou para ser vista e ouvida por quem realmente é.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety