O ecossistema brasileiro de startups está gerando suas próprias “máfias”. A provocação não se refere a nada ilícito, mas a um dos mais potentes motores de inovação do Vale do Silício. A análise é de Arjuna Costa, sócio-fundador da gestora de venture capital Flourish Ventures, em entrevista recente ao portal Startups.
O termo, consagrado pela “máfia do PayPal” — grupo de ex-funcionários que inclui nomes como Elon Musk, Peter Thiel e Reid Hoffman —, descreve o ciclo em que profissionais de uma empresa de tecnologia de sucesso acumulam experiência e capital para, em seguida, fundarem a próxima geração de negócios. Para Costa, o Brasil vive o início desse fenômeno com as “máfias” de Guiabolso, Rappi e Nubank, um sinal claro de amadurecimento do mercado.
O ciclo virtuoso do talento
O fenômeno descrito por Costa é um indicador de que um ecossistema transcendeu a fase de apenas replicar modelos e passou a gerar conhecimento e redes de contato orgânicas. Quando um profissional vivencia de perto a jornada de crescimento acelerado, ele não apenas aprende o manual de operações, mas também desenvolve a confiança para iniciar sua própria empreitada. É a passagem do conhecimento tácito para a criação de novos ativos.
A Flourish, que nasceu de um spin-off da Omidyar Network (fundada pelo criador do eBay, Pierre Omidyar), vivenciou essa tese em seu próprio portfólio. A gestora investiu no Guiabolso, fintech vendida ao PicPay em 2021. Na sequência, aportou na Kamino, plataforma de gestão financeira cofundada por um ex-executivo do Guiabolso. O ciclo se fecha: o sucesso de uma empresa irriga o nascimento da seguinte, com capital e, principalmente, com talento validado.
Ambição global, gargalos locais
Essa dinâmica alimenta uma nova ambição nos fundadores brasileiros. Costa afirma que, em termos de talento e visão, os empreendedores locais já competem em nível global. A mentalidade de “reconstruir o sistema” para torná-lo melhor tornou-se comum, especialmente no setor de serviços financeiros, onde o Brasil possui uma infraestrutura regulatória e tecnológica sofisticada, como o Pix e o Open Finance.
Contudo, o ecossistema de apoio ainda não acompanha o mesmo ritmo. O principal gargalo, segundo o investidor, está na escassez de capital para rodadas de captação mais avançadas, a partir da Série B. Isso força muitas startups promissoras a buscar investidores no exterior para continuar sua expansão. O desafio, portanto, é converter o interesse de fundos globais oportunistas em um comprometimento de longo prazo com o mercado brasileiro.
O surgimento das 'máfias' de talento é a prova de que a base da pirâmide — a capacidade de gerar inovação e fundadores qualificados — está sólida. A questão que definirá a próxima década é se o topo da pirâmide, o mercado de capitais, conseguirá amadurecer na mesma velocidade para financiar essas ambições em escala local até o fim do ciclo.
Com reportagem de Brazil Valley
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