A aquisição da WonderFi, maior empresa de criptoativos do Canadá, pela americana Robinhood por C$250 milhões gerou um debate sobre a perda de um ativo estratégico nacional. Mas para o fundador da companhia, Karia Samaroo, a venda não foi uma falha, e sim uma consequência lógica de um ambiente de negócios que limita a ambição.
Em um artigo publicado na Fortune, Samaroo argumenta que o problema de fundo não é a venda em si, mas as condições que a tornaram inevitável. A tese é direta: o Canadá impõe um “teto de crescimento” para empresas de tecnologia, tornando a aquisição por um player estrangeiro o caminho mais crível para a escala global. Bloquear o negócio, segundo ele, seria tratar o sintoma, não a doença.
O teto de crescimento canadense
O diagnóstico de Samaroo aponta para uma série de ventos contrários que sufocam a escala: menor investimento corporativo, capital de crescimento mais escasso, mercados públicos em declínio e uma recompensa menos competitiva pela tomada de risco. Ele contrasta a realidade canadense com os incentivos agressivos de jurisdições como Flórida, Texas, Reino Unido e Singapura.
Para o setor de criptoativos, o desafio é duplo. Na esteira do colapso da exchange Quadriga, os reguladores canadenses criaram um dos regimes mais exigentes do mundo. A resposta, embora compreensível, tornou o custo de operação proibitivo para muitos. Gigantes globais como Binance, OKX, Bybit e Gemini tentaram e, posteriormente, abandonaram o mercado. A complexidade regulatória, segundo Samaroo, um ex-advogado de mercado de capitais, afugenta investidores e eleva os custos de forma insustentável.
Um padrão de êxodo
O caso da WonderFi não é isolado, mas parte de um padrão recorrente no ecossistema canadense. Samaroo cita outras empresas de tecnologia como Nuvei, Verafin e Sierra Wireless, que seguiram trajetórias semelhantes: constroem um negócio relevante, atingem os limites do mercado doméstico e, por fim, recorrem a capital ou a um comprador estratégico estrangeiro para dar o próximo passo.
A crítica ecoa sentimentos de outros líderes proeminentes. O fundador do Shopify, Tobi Lütke, já lamentou o padrão de “enviar para outro lugar o que temos de mais importante”. Para Samaroo, o diagnóstico está correto: o Canadá continua perdendo seus negócios mais promissores e seus melhores talentos.
A venda para a Robinhood, nesta leitura, não é o fim da história da WonderFi, mas o início de sua fase de crescimento global — um passo que se tornou inviável sob a bandeira canadense. A conclusão de Samaroo é um recado para legisladores: a política fácil é bloquear uma venda. O trabalho difícil é construir um país onde permanecer independente seja uma opção genuinamente estratégica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





