Em 2019, um novo pavilhão nacional estreava na Bienal de Veneza: o de Madagascar. Por trás da empreitada estava o patrocínio decisivo de Hasnaine Yavarhoussen, empresário e colecionador que, até um ano antes, sequer possuía obras de artistas de seu próprio país. Uma conversa com o artista Joël Andrianomearisoa em 2018 não apenas convenceu Yavarhoussen a financiar a presença inédita na mais importante mostra de arte do mundo, mas o converteu em um arquiteto determinado a construir uma cena artística para a nação insular.

Herdeiro e CEO do Groupe Filatex, um conglomerado com negócios que vão de energia a hotelaria, Yavarhoussen canalizou seu capital para uma missão estruturada. O primeiro passo foi a criação do Fonds Yavarhoussen em 2019, um fundo para promover a cultura malgaxe. A seguir, em parceria com Andrianomearisoa, nasceu a Hakanto Contemporary, um centro de arte que ocupa um galpão de quase 2.000 metros quadrados na capital, Antananarivo. O espaço tornou-se a espinha dorsal da emergente cena local, com exposições, residências e programas educacionais.

Repatriação e diplomacia cultural

A estratégia de Yavarhoussen opera em duas frentes simultâneas: fortalecer a base local e projetar a arte malgaxe globalmente. Sua coleção de mais de 500 obras passou a ter um foco duplo. O primeiro é pessoal, guiado pelo gosto. O segundo é uma missão que ele chama de “relocalização”: adquirir obras de arte moderna de Madagascar que deixaram o país na época da independência, em 1960, e trazê-las de volta.

Ao mesmo tempo, ele atua como um diplomata cultural. Membro do comitê de aquisições para a África da Tate, Yavarhoussen doa obras para instituições como o Metropolitan Museum of Art de Nova York e empresta peças de sua coleção para museus na Europa. Para ele, a arte não deve ficar em depósitos ou escritórios corporativos. O objetivo, segundo declarou à ARTnews, é “garantir maior visibilidade” e “dar nova vida à coleção”.

Artistas como Andrianomearisoa, hoje representado pela galeria Almine Rech e indicado ao prestigioso prêmio francês Marcel Duchamp, são a prova de que o impacto é real. “Acho que cumprimos nossa missão”, afirmou Yavarhoussen. A declaração soa como um marco, não um ponto final. A construção de um legado cultural, afinal, é um projeto que nunca termina de ser inaugurado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews