Biohackers otimizam cada caloria e ciclo de sono para estender a vida. Bilionários injetam capital em startups de biotecnologia para torná-la, quem sabe, eterna. A morte, contudo, não discrimina. É o evento final que iguala a todos, um desfecho que abala rotinas e desafia a lógica da otimização. Ela chega em momentos inoportunos, indiferente a planilhas de risco ou portfólios de investimento.
Vivemos uma era que se acostumou a enxergar a morte como um evento distante, um ponto nebuloso no futuro. Conquistas banais da civilização — nutrição aprimorada, higiene básica, segurança pública — empurraram a expectativa de vida para perto dos 80 anos nos Estados Unidos e acima disso na Europa e em partes da Ásia. A média global é de 73 anos. O resultado é uma percepção irracional, mas poderosa, de que a finitude é um problema para os outros. A morte, no entanto, é tão certa quanto o Natal, como descreve um ensaio de Peter Topolewski para a publicação 3 Quarks Daily. Antes dela, porém, vem a velhice.
A longevidade como produto
A busca pela extensão da vida tornou-se um dos mercados mais promissores da tecnologia. A narrativa é sedutora: a morte como um problema de engenharia a ser resolvido. Laboratórios e empresas do Vale do Silício tratam o envelhecimento não como um processo natural, mas como uma doença a ser curada. Contudo, essa ambição ignora uma verdade inconveniente: o que acontece no tempo extra que se ganha? Desejos por dinheiro, sexo e poder — motores de uma vida produtiva — tendem a diminuir. A mobilidade se reduz, a fragilidade aumenta. A audição falha, a visão escurece, os músculos se dissolvem.
O paradoxo é que, enquanto a tecnologia foca em adiar o fim, ela pouco oferece para a jornada que o precede. A velhice prolongada não é um estado de juventude estendida, mas frequentemente um período de crescente dependência. É a fase em que a autonomia, antes tida como certa, se esvai. A pessoa que um dia foi o pilar da família torna-se, ela mesma, uma estrutura que precisa de suporte. O medo, então, muda de natureza. Não é apenas o medo de morrer, mas o pavor de se tornar um fardo, de perder o controle sobre a própria existência enquanto ela se arrasta.
A economia oculta do cuidado
É aqui que a grande narrativa da longevidade encontra sua falha mais gritante: a economia do cuidado. Nos Estados Unidos, mais de 65 milhões de pessoas têm mais de 65 anos. Em 2021, segundo o Bureau of Labor Statistics, 37 milhões de pessoas forneceram cuidado não remunerado a idosos — um trabalho que recai majoritariamente sobre filhas, mas também filhos e outros parentes. É uma montanha de prescrições, consultas médicas, refeições não comidas e fraldas trocadas. Um trabalho invisível, estressante e subvalorizado, que subtrai tempo da própria vida do cuidador.
Quando esse cuidado é profissionalizado, ele se torna um grande negócio, mas um negócio de margens apertadas e mão de obra mal remunerada. Em 2022, cuidadores em asilos nos EUA ganhavam cerca de US$ 18 por hora; para atendimento domiciliar, o valor era inferior a US$ 15. São pessoas, muitas delas imigrantes, que oferecem compaixão e conforto a estranhos em seus momentos de maior vulnerabilidade. São os heróis anônimos de uma sociedade que celebra a extensão da vida, mas se recusa a pagar o preço de mantê-la com dignidade. A busca pela imortalidade é um projeto de elite; o cuidado com a fragilidade é um trabalho de base, exaustivo e mal pago.
No fim, a questão que a tecnologia não consegue responder é sobre o propósito. A demência, descrita como o desvanecer incremental de memórias e da razão, representa a perda dupla: a pessoa se vai antes do corpo. O que resta quando a identidade se desfaz? A obsessão em estender a vida a qualquer custo nos força a confrontar o que realmente tememos: não a morte em si, mas a dissolução do eu. Talvez a resposta não esteja em algoritmos ou terapias genéticas, mas na capacidade humana, tantas vezes demonstrada, de cuidar do outro. De segurar a mão de quem já não sabe quem somos, reconhecendo que, no final, a única coisa que nos sustenta é o amparo mútuo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 3 Quarks Daily





