Donald Trump está pressionando oficialmente a Marinha dos Estados Unidos a abandonar uma de suas principais inovações tecnológicas. Em um memorando recente, o ex-presidente determinou que o Departamento de Defesa inicie, em 60 dias, o planejamento para substituir as modernas catapultas eletromagnéticas por antigos sistemas a vapor em um futuro porta-aviões da classe Ford, o USS Doris Miller (CVN-81).

A ordem materializa anos de críticas públicas de Trump ao novo sistema, conhecido como EMALS (Electromagnetic Aircraft Launch System), que ele já descreveu como excessivamente complexo e pouco confiável. A decisão, no entanto, vai na contramão de dados da própria Marinha e de alertas da indústria, acendendo um debate sobre a influência do poder político nas decisões estratégicas e tecnológicas das Forças Armadas.

O fetiche pelo "testado e aprovado"

A tecnologia que Trump quer descartar é o coração da nova geração de porta-aviões americanos. O sistema EMALS, instalado no USS Gerald R. Ford, permite lançar aeronaves com maior frequência e menor desgaste estrutural. Segundo a Marinha, a inovação contribuiu para um aumento na taxa de surtidas em comparação com os navios da classe Nimitz, equipados com catapultas a vapor. Além disso, a nova tecnologia reduz a necessidade de pessoal e manutenção, gerando uma economia estimada em US$ 100 milhões por ano por navio.

A cruzada de Trump contra o EMALS é mais narrativa do que técnica. Ele defende um retorno ao "bom e velho vapor" ("goddamned steam", em suas palavras), pintando a inovação como um capricho de engenheiros. A insistência ignora que, apesar de desafios iniciais no desenvolvimento, o sistema eletromagnético já demonstrou sua superioridade operacional. A disputa opõe uma visão nostálgica de robustez mecânica à realidade de uma tecnologia mais eficiente e já em operação.

Um nó industrial e uma conta bilionária

As implicações da diretiva são profundas e, principalmente, caras. O USS Doris Miller, alvo da mudança, já está com cerca de 50% de sua construção concluída. Segundo reportagem do Business Insider, que cita Bryan Clark, especialista em defesa do Hudson Institute, reverter o projeto para acomodar sistemas a vapor exigiria um redesenho completo, adicionando "bilhões de dólares" ao custo e anos ao cronograma de entrega, previsto para 2034.

O problema é também industrial. As linhas de produção para catapultas a vapor foram desativadas há quase duas décadas, após a última encomenda da Marinha. A General Atomics, que detém o contrato de US$ 1,2 bilhão para fornecer o EMALS ao navio, já pediu publicamente uma "reconsideração cuidadosa" da decisão. A ordem de Trump força a indústria de defesa a um dilema: investir recursos para ressuscitar uma tecnologia obsoleta por determinação política ou seguir o mapa tecnológico traçado pelos estrategistas militares.

O embate sobre as catapultas do USS Doris Miller transcende a engenharia naval. Ele se torna um estudo de caso sobre a tensão entre o comando político e a autonomia técnica das forças armadas em suas decisões de longo prazo. A questão que fica no ar não é se o vapor é melhor que o eletromagnetismo, mas quem, de fato, deve pilotar a inovação na maior marinha do mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider