Em análise recente publicada pela Forbes, delineia-se uma fratura profunda no setor financeiro: a divisão entre empresas de capital fechado hipervalorizadas e seus pares de capital aberto. Dados da Capite expõem o descolamento: o valor de mercado agregado das dez maiores fintechs privadas saltou 164% nos últimos doze meses, contra um avanço de 2% das companhias públicas. Esse abismo é sustentado por injeções de capital privado e narrativas centradas em inteligência artificial, que funcionam como alavancas para justificar múltiplos inflados. O resultado é um ecossistema onde grandes investidores institucionais competem pelos vencedores da revolução da IA, criando avaliações insustentáveis.
A distorção dos múltiplos e a realidade do capital
A discrepância de avaliações fica evidente na comparação de líderes privados com concorrentes públicos. A Stripe reportou em 2025 receita líquida de US$ 6,9 bilhões e lucros de US$ 1,2 bilhão antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Sua avaliação de US$ 159 bilhões, no entanto, representa quase cinco vezes o valor da Adyen, sua concorrente holandesa de capital aberto — embora ambas tenham processado US$ 1,9 trilhão em pagamentos no ano anterior.
O cenário se repete em cartões corporativos. A Ramp anunciou US$ 1 bilhão em receita bruta anualizada em setembro de 2025, alcançando um valuation de US$ 32 bilhões. O cálculo ignora a subtração de taxas de intercâmbio, o que sugere uma receita líquida 40% menor e um múltiplo próximo a 50 vezes. A título de comparação, a rival Brex, com receita 30% menor, foi adquirida pela Capital One em janeiro de 2026 por US$ 5,15 bilhões.
Michael Gilroy, ex-sócio da Coatue e fundador da Marathon, classificou os valuations privados como além do absurdo, afirmando que não estão "nem no mesmo código postal" do valor em mercado público. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que essa hiperprecificação ecoa o comportamento do capital de risco nos anos anteriores à correção global de juros.
A narrativa da inteligência artificial como escudo
A força motriz dessa divisão é a construção hábil de narrativas em torno da IA. Stripe e Ramp têm convencido investidores de que a tecnologia impulsionará seus negócios. Contudo, a tentativa de replicar esse otimismo no mercado aberto tem falhado. A Klarna tentou a mesma estratégia, com seu CEO, Sebastian Siemiatkowski, declarando que a empresa já utilizava IA para substituir softwares da Salesforce. Os investidores públicos permaneceram céticos: a Klarna opera com valor de US$ 6 bilhões, fração de sua avaliação privada de US$ 46 bilhões em 2021.
O desempenho de IPOs recentes reforça a correção. O banco digital Chime, avaliado em US$ 25 bilhões no pico de 2021, abriu capital em junho de 2025 e negocia entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões. Segundo Rosio Wu, sócia da F-Prime Capital, das 11 fintechs que realizaram ofertas públicas no último ano, apenas três operam acima do preço de IPO.
Ainda assim, fundos soberanos e de pensão, buscando se associar às próximas gigantes da tecnologia, optam por investir diretamente em companhias fechadas, pressionando os valuations ainda mais para cima.
A consequência estrutural desse movimento é a escassez de ofertas públicas, limitando as oportunidades para que investidores do mercado aberto participem da criação de riqueza. Annie Lamont, da Oak HC/FT, resume o cenário como uma "suspensão de descrença", onde o capital é alocado em uma espécie de caixa cega. O risco iminente, delineado pela análise da Forbes, é um acerto de contas caso a bolha da inteligência artificial desinfle, forçando uma convergência entre a fantasia dos múltiplos privados e a realidade dos mercados públicos.
Fonte · Brazil Valley | Fintech




