Em análise recente sobre a evolução do mercado de telecomunicações, a trajetória da Nokia é dissecada não pelo que a empresa foi, mas pelo que se tornou. Após dominar o mercado global de celulares com 40% de participação e atingir um valor de mercado superior a US$ 290 bilhões nos anos 2000, a companhia finlandesa abandonou o consumidor final. Hoje, o modelo de negócios da Nokia baseia-se em fornecer a tecnologia que sustenta as redes globais de conectividade, dividindo sua receita em três pilares centrais: infraestrutura de telecomunicações, serviços de nuvem e o licenciamento de um portfólio massivo de propriedade intelectual.

A anatomia de um colapso e a virada estratégica

O declínio da divisão de celulares da Nokia expõe falhas na cadeia de comando diante de disrupções. Quando a Apple lançou o iPhone, a alta gestão da Nokia compreendia as especificações e o impacto potencial do novo produto, exercendo forte pressão sobre os quadros intermediários. O resultado foi uma distorção nos relatórios internos: gerentes passaram a embelezar dados e fazer promessas excessivamente otimistas, criando a ilusão de que a resposta da Nokia ao iPhone estava pronta para o lançamento. Entre 2007 e 2012, a receita com celulares despencou de mais de US$ 36 bilhões para pouco mais de US$ 20 bilhões.

A saída encontrada foi drástica. Em 2013, a Nokia vendeu sua divisão de celulares para a Microsoft por mais de US$ 7 bilhões. O capital levantado permitiu que a empresa financiasse a compra da participação da Siemens em sua joint venture de redes. Em 2016, a consolidação desse novo foco ocorreu com a aquisição da Alcatel-Lucent por € 15,6 bilhões. O movimento diversificou a atuação da Nokia para além das redes sem fio, incorporando redes fixas e ópticas, e elevando sua fatia no mercado global de equipamentos de telecomunicações para cerca de 24%.

Margens invisíveis e a aposta em redes nativas de IA

Sem o apelo do varejo, a rentabilidade da Nokia estabilizou-se nos bastidores da infraestrutura. A unidade de redes, que constrói e opera a infraestrutura de banda larga e telefonia móvel, responde hoje pela maior parte das receitas. No entanto, a divisão mais singular e rentável da operação reside no licenciamento tecnológico. A companhia detém mais de 26 mil famílias de patentes, incluindo milhares essenciais para o funcionamento do 5G. Como os custos de desenvolvimento dessa propriedade intelectual já foram amortizados ao longo de décadas, a receita de licenciamento cobrada de outras empresas do ecossistema móvel flui quase integralmente para o lucro líquido.

Essa estrutura permitiu resiliência financeira em ciclos de baixa. Em 2023, mesmo com a desaceleração do mercado de equipamentos de telecomunicações, a Nokia registrou um lucro operacional de US$ 1,8 bilhão, enquanto sua principal rival, a Ericsson, reportou prejuízo. Agora, a empresa direciona seus investimentos de pesquisa e desenvolvimento para a próxima geração de conectividade. O debate interno e mercadológico concentra-se na viabilidade de redes nativas de inteligência artificial e no conceito de "AI RAN", onde a inteligência artificial é integrada diretamente às estações base. A Nokia avalia a criação desse mercado em conjunto com a Nvidia, apostando também no uso de mini data centers para rodar aplicações corporativas.

A metamorfose da Nokia ilustra a sobrevivência corporativa através do abandono de legados insustentáveis. Para contexto, a BrazilValley aponta que raras são as companhias centenárias que conseguem alienar sua principal fonte de reconhecimento público para reconstruir suas margens no mercado B2B, operando nas fundações da indústria em vez de na vitrine. Ao deixar de fabricar os aparelhos que a tornaram onipresente, a Nokia garantiu que a conectividade moderna dependesse de sua tecnologia, transformando suas patentes e cabos na verdadeira máquina de fazer dinheiro.

Fonte · Brazil Valley | Business