A Novo Nordisk, fabricante do Wegovy, moveu suas peças no tabuleiro da saúde pública brasileira. A farmacêutica dinamarquesa propôs fornecer seu medicamento para obesidade ao SUS com um desconto de 59%. O movimento vem na esteira do anúncio do Ministério da Saúde de que pretende oferecer gratuitamente análogos de GLP-1, a classe de fármacos que se tornou sinônimo de tratamento para a condição.
A oferta, submetida em maio à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), não é um ato isolado. É uma resposta estratégica em um mercado que mudou drasticamente. A patente da semaglutida expirou em março, abrindo espaço para a concorrência local e colocando em xeque o domínio da Novo Nordisk. A promessa do governo, feita sem cronograma ou orçamento, criou uma expectativa pública que agora precisa ser gerenciada com a realidade fiscal.
A conta que não fecha
O desconto de 59% é expressivo, mas a matemática exige atenção. Aplicado sobre o preço de referência, o Wegovy chegaria ao SUS por cerca de R$ 539 por caneta, segundo cálculos baseados em valores de varejo apurados pela Bloomberg Línea. O valor, contudo, ainda é 16% superior ao de versões de semaglutida de fabricantes nacionais como a EMS (Ozivy) e a Hypera (Semavy), que já são comercializadas por cerca de R$ 465. Essa diferença de preço é o novo campo de batalha.
A Conitec já havia negado a incorporação da semaglutida no passado, assustada por um impacto orçamentário estimado em mais de R$ 8 bilhões. A proposta da Novo tenta endereçar essa barreira, mas a chegada de concorrentes com produção local e preços mais agressivos redefine a equação. Para o governo, a existência de múltiplos fornecedores é vista como uma garantia de sustentabilidade para o programa, mas a decisão final dependerá de uma análise técnica que agora tem mais variáveis.
O jogo de longo prazo
O argumento da Novo Nordisk para justificar seu preço premium se baseia em dados clínicos robustos. A empresa cita o estudo SELECT, que demonstrou uma redução de 20% em eventos cardiovasculares graves em pacientes que utilizaram o Wegovy. A estratégia é clara: segmentar a oferta para um público específico — pacientes com obesidade e doença cardiovascular estabelecida — onde o valor clínico seria indiscutível, defendendo seu posicionamento contra alternativas mais baratas, cujas bulas ainda se concentram no tratamento de diabetes tipo 2.
Enquanto isso, os competidores se posicionam. A EMS afirma ter capacidade para produzir até 40 milhões de canetas por ano em sua planta em São Paulo, sinalizando ao governo que há capacidade produtiva nacional para atender a uma demanda em larga escala. A Eli Lilly, com seu rival Mounjaro, observa atentamente. A promessa do governo federal acelerou uma disputa de mercado que estava latente, transformando a Conitec no árbitro de uma negociação multibilionária com impacto direto na saúde de milhões de brasileiros.
O movimento da Novo Nordisk é uma tentativa de ditar os termos da discussão, vinculando preço a desfechos clínicos específicos. A resposta do governo e dos concorrentes nos próximos meses definirá não apenas o custo do tratamento da obesidade no Brasil, mas o próprio modelo de como o SUS lidará com inovações de alto custo em um cenário de crescente competição farmacêutica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





