A artista vietnamita Tia-Thuy Nguyen apresenta em Xangai sua primeira exposição individual na China, intitulada “Fields of Resonance”. A mostra, que segundo o portal Designboom ficará em cartaz na galeria Almine Rech de 28 de agosto a 31 de outubro de 2026, reúne cerca de vinte obras que materializam formações de nuvens, um motivo recorrente no trabalho da artista desde 2018.
O que começou como uma exploração de memórias ligadas a seu pai, um piloto da guerra do Vietnã, evoluiu para um diário visual sobre a transitoriedade. A tese da exposição, no entanto, vai além da representação. Nguyen move a nuvem do plano bidimensional para a estrutura tridimensional, utilizando uma gama de materiais que vai de miçangas e lantejoulas a quartzo e aço inoxidável. O resultado é uma investigação sofisticada sobre como dar forma física e permanência a algo por definição efêmero e intangível.
A Tensão entre Artesanato e Indústria
O cerne do trabalho de Nguyen reside no contraste deliberado de técnicas e materiais. Em obras como “Fairer than a Fairy”, uma paisagem de nuvens de 2 por 3 metros é construída com tinta a óleo e milhares de miçangas e lantejoulas. A superfície adquire volume físico, posicionando a peça no limiar entre pintura e escultura. A técnica, informada pela experiência da artista com moda e tradições artesanais vietnamitas, transforma o bordado em um ato estrutural. Cada miçanga reflete a luz de maneira única, criando uma superfície que se altera com o movimento do observador, mimetizando a natureza instável de uma nuvem.
Em contraponto, trabalhos como “The Pause Between Storms” apresentam uma abordagem radicalmente diferente. Finos fios de aço inoxidável são dobrados, unidos e tecidos para formar nuvens que ocupam o espaço físico. O material industrial, associado à rigidez e resistência, é manipulado com a delicadeza de uma fibra têxtil. O processo subverte as expectativas tanto do material quanto da técnica, resultando em esculturas que parecem leves e delicadas, mas retêm a integridade estrutural do aço. A escolha de deixar o metal em seu estado bruto permite que a luz e a sombra definam a forma, criando uma impressão de movimento em uma estrutura estática.
A Materialidade da Luz e da Memória
A seleção de materiais por Nguyen é precisa e conceitual. Em esculturas compactas como “Like a Sky Breeze”, fragmentos de quartzo, cristal e vidro reciclado são montados sobre uma base de pedra. A transparência e as qualidades reflexivas desses minerais fazem com que a luz ambiente se torne parte integrante da obra. A artista não aplica cor ou brilho à superfície; ela permite que o próprio material absorva, refrate e emita luz. A aparência da escultura muda constantemente dependendo do entorno, tornando a luz um componente ativo da composição, não apenas um elemento de iluminação.
Essa abordagem se conecta diretamente ao título da exposição, “Fields of Resonance”. A ressonância ocorre no encontro entre o estado interno — a memória, a emoção — e o mundo externo, materializado na obra. A instalação “Enduring Vitality”, uma árvore de sete metros de comprimento feita de aço, ancora as nuvens etéreas da mostra. As raízes oferecem estabilidade, enquanto os galhos se espalham, conectando o céu e a terra e aludindo ao ciclo da natureza, onde a água que se condensa nas nuvens retorna para nutrir a vida. O trabalho de Nguyen, portanto, não é sobre representar a natureza, mas sobre usar seus processos como uma gramática para construir significado.
Ao final, a prática de Nguyen dissolve fronteiras: entre pintura e escultura, artesanato e indústria, desenho e arquitetura. Os contrastes materiais não são um artifício, mas o método central para investigar como damos forma ao intangível. A exposição desafia o observador a ver o aço como ar, o cristal como luz e a matéria como um condutor de memória, transformando a galeria em um campo onde o permanente e o transitório dialogam de forma contínua.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





