Num ensaio para a publicação literária Lit Hub, a romancista Rose Smith revisita uma das obras fundadoras da cultura ocidental, a Odisseia, para refletir não sobre seu valor histórico, mas sobre sua surpreendente plasticidade. A cada fase da vida, argumenta, o poema de Homero oferece um espelho distinto, revelando novas facetas sobre identidade, família e o significado de pertencimento.

A tese de Smith é que a força da epopeia não está meramente nas aventuras de Ulisses, mas na forma como a narrativa se adapta às inquietações de quem a lê. A jornada de retorno a Ítaca, o conceito grego de nostos, transforma-se ao longo do tempo. O que começa como uma busca por um lugar físico amadurece para se tornar uma jornada interna: a restauração da própria humanidade após um longo período de provações.

A jornada como espelho

Smith relata ter lido a Odisseia pela primeira vez aos dezesseis anos. Em meio a uma adolescência marcada pela ausência paterna, sua identificação foi imediata não com o herói, mas com seu filho, Telêmaco. A raiva e a confusão do jovem, que cresceu ouvindo lendas sobre um pai genial e ausente, ecoavam sua própria experiência. Enquanto conhecidos descreviam seu pai como um “gênio incompreendido”, os interlocutores de Telêmaco exaltavam Ulisses como um homem sem “rivais nos truques da guerra”. A obra oferecia um vocabulário para a complexidade de crescer à sombra de uma figura mítica.

Anos mais tarde, durante viagens pela América Latina e Europa, a leitura se concentrou nas peripécias de Ulisses, vistas como uma exploração sobre “como viver, como ser uma pessoa plenamente realizada”. Já na maturidade, como esposa e mãe, foi a figura de Penélope que a capturou. Na tradução de Emily Wilson, que Smith destaca por sua introdução sobre o potencial feminino, Penélope emerge não como uma figura passiva, mas como uma estrategista à altura de Ulisses em astúcia e resiliência, navegando um casamento complexo e a criação de um filho.

O 'nostos' revisitado

O ponto central da reflexão de Smith é a ressignificação do nostos. Para ela, o verdadeiro “retorno ao lar” de Ulisses não se completa ao pisar novamente em Ítaca, mas no doloroso processo de se reintegrar à sua família e comunidade. É a jornada de abandonar os disfarces e as máscaras para ser reconhecido por quem ele de fato se tornou. O clímax não é a vingança bárbara contra os pretendentes, mas o momento em que Penélope, com sua inteligência e discernimento, o aceita de volta.

Nessa leitura, o nostos se descola da geografia e se torna um conceito universal: “uma restauração da humanidade, da comunidade e dos relacionamentos após suportar dificuldades”. A Odisseia funciona, assim, como uma espécie de código-fonte narrativo. Sua estrutura — a jornada, a provação, o retorno, a busca por identidade — é um framework que vem sendo adaptado e reinterpretado há milênios, da literatura ao cinema, e até mesmo nas narrativas de fundação de empresas que se apresentam como “desbravadoras” em busca de um propósito.

O ensaio de Smith, que menciona como a Odisseia influenciou seu próprio romance, serve como um lembrete do poder das histórias fundamentais. Elas não são artefatos estáticos, mas documentos vivos, cujo significado é reescrito a cada nova leitura, a cada nova geração. A questão que permanece não é o que a Odisseia significou para os gregos, mas o que ela pode significar agora, e qual será sua próxima tradução — seja em livro, filme ou em qualquer outra forma que nossa era inventar para contar a si mesma.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub