A Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) elevou o tom do debate sobre a inovação no campo: para a entidade, as gigantes de biotecnologia, como Bayer e Corteva, não deveriam mais esperar a aprovação da China para lançar novas variedades de milho transgênico no Brasil. A posição, defendida publicamente pelo diretor-executivo da associação, Glauber Silveira, reflete uma impaciência crescente com o que é visto como um gargalo custoso para a produtividade nacional.

O argumento central é pragmático e se baseia na mudança do xadrez comercial. Segundo a Abramilho, a espera pelo carimbo chinês, que pode levar anos, representa perdas bilionárias para os produtores brasileiros. A justificativa para essa submissão estratégica perde força quando se observa que a China, após um pico de compras em 2023, deixou de ser um destino relevante para o milho brasileiro. A leitura é que o setor não pode ter seu ciclo de inovação ditado por um comprador que se tornou marginal.

O peso (decrescente) de Pequim

Os números apresentados pela associação, com base em dados oficiais, sustentam a tese. De janeiro a junho, a China importou cerca de 220 mil toneladas de milho do Brasil, um volume ínfimo perto do total de 7,9 milhões de toneladas exportadas pelo país no período. O volume contrasta com as mais de 16 milhões de toneladas importadas por Pequim em 2023, um movimento atípico que se seguiu a um novo acordo sanitário entre os países. “Teve um ano que comprou, quando precisava, e agora não compra mais”, resumiu Silveira, segundo a reportagem.

A própria Abramilho faz a distinção crucial em relação à soja, onde a China responde por mais de 70% das exportações brasileiras. Nesse caso, aguardar o sinal verde de Pequim é uma necessidade comercial inquestionável. Para o milho, contudo, a demanda interna — exemplificada por Silveira ao citar que uma única nova usina de etanol em Mato Grosso consome mais que as importações chinesas — e a pulverização para outros mercados tornam a dependência da burocracia chinesa um mau negócio.

O cálculo do risco

Do lado das multinacionais, a equação é mais complexa. Bayer e Corteva operam em uma escala global, e lançar uma tecnologia não aprovada por um mercado do tamanho da China, mesmo que este não seja um comprador imediato do produto, cria riscos logísticos e de contaminação de cargas que podem gerar crises comerciais. A estratégia dessas empresas tende a ser conservadora, buscando um alinhamento regulatório amplo antes de introduzir novas sementes no mercado.

A contraproposta da Abramilho é que seria “relativamente fácil” segregar o milho de lavouras com tecnologias ainda não aprovadas por Pequim, caso a China volte a comprar volumes residuais. Essa afirmação está no centro da disputa. O movimento da associação é uma tentativa de forçar uma reavaliação do cálculo de risco pelas empresas, colocando na balança as perdas de produtividade dos agricultores contra os riscos corporativos das fornecedoras de tecnologia.

O debate sobre o milho transgênico, portanto, transcende a questão pontual. Ele se torna um teste para a autonomia estratégica do agronegócio brasileiro. À medida que a demanda se diversifica e a tecnologia avança, a política de esperar por um único ator, por mais relevante que seja, pode se tornar um freio à competitividade. A pressão da Abramilho sinaliza que, para uma parte do setor, esse momento chegou.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times