Um telegrama de uma linha chegou ao Chile de Salvador Allende: “Farei o que puder. Chris.” O remetente era o cineasta francês Chris Marker. O destinatário, seu colega chileno Patricio Guzmán, que via o projeto de documentar o governo socialista ser paralisado por um bloqueio à importação de película cinematográfica. Um mês depois, 12 mil metros de filme preto e branco pousaram no aeroporto de Santiago.

Com esse material, Guzmán e sua equipe filmaram 'A Batalha do Chile', um épico documental em três partes que se tornaria, nas palavras da crítica, uma “testemunha furiosa de uma história terrível”. O registro da ascensão e queda de Allende, culminando no golpe militar de 1973, teve um custo humano: um cinegrafista foi morto durante as filmagens, outro “desapareceu” anos depois. O próprio filme precisou ser contrabandeado para fora do país, um sobrevivente físico que carregava a memória de uma utopia interrompida.

Do outro lado do Atlântico, uma luta similar pela imagem e pela narrativa se desenrolava. Em 'Sambizanga' (1972), a cineasta Sarah Maldoror filmava a luta de Angola pela independência do colonialismo português. Longe de ser uma aula teórica, seu cinema era, como descreveu a revista Sight and Sound, “um filme íntimo, feito por alguém com a pele em jogo”. A obra de Maldoror é um acerto de contas com os sistemas entrelaçados de colonialismo, capitalismo e patriarcado, provando que a câmera também era uma ferramenta de descolonização.

Tanto Guzmán, falecido recentemente, quanto Maldoror, entendiam o cinema não como um espelho passivo da realidade, mas como um ato de construção. Seus filmes não são apenas registros; são argumentos, testemunhos que se recusam a permitir que a história seja uma narrativa única, ditada pelos vencedores. São a prova de que, às vezes, a imagem é a única trincheira que resta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Criterion Daily