Há três anos, o designer nova-iorquino Jake Welch dedica-se a uma curadoria inusitada: escanear banheiros públicos em 3D e arquivá-los em seu site, o The Restroom Archive. O projeto, que se descreve como um “repositório contínuo de banheiros publicamente acessíveis”, apresenta aos visitantes um modelo 3D aleatório, sua localização e uma breve descrição, tudo com uma roupagem de arquivo museológico.

O que começou como uma piada — escanear o banheiro de uma lanchonete com um aplicativo de fotogrametria — evoluiu para uma espécie de antropologia digital. Segundo reportagem do portal 404 Media, Welch percebeu que os espaços contavam histórias. A leitura aqui é que, por trás da premissa excêntrica, o projeto se tornou um estudo fascinante sobre cultura material, design vernacular e a história não contada dos espaços mais privados e, ao mesmo tempo, públicos que existem.

Da piada à antropologia digital

A gênese do arquivo foi o acaso. Após descobrir o aplicativo Polycam, que utiliza centenas de fotos para costurar um ambiente 3D, Welch escaneou o banheiro de um restaurante e achou o resultado cômico. A brincadeira continuou durante uma viagem com amigos, na qual passou a documentar sistematicamente os banheiros pelo caminho. Foi quando o olhar de designer sobrepôs o humorista. “Comecei a notar coisas que gostava em cada um deles”, disse Welch ao 404 Media. “Seja uma lixeira estranha ou um secador de mãos ligado a uma tomada logo abaixo dele.”

Essa observação revelou padrões e narrativas. Welch notou como os banheiros “refletem a cultura de onde estão situados e as pessoas que os utilizam”. Ele contrasta os banheiros espaçosos e comerciais de Utah, repletos de redes de restaurantes, com os de Nova York: pequenos, improvisados e muitas vezes servindo como depósito. Alguns são assustadores, marcados pelo tempo e pelo uso intenso em paradas de caminhoneiros; outros são bem projetados ou surpreendentemente ecléticos, funcionando como um espelho do estabelecimento ao qual pertencem.

A estética do imperfeito

A tecnologia por trás do arquivo é acessível: um smartphone com aplicativos de fotogrametria. Welch prefere seu iPhone Pro pelo sensor lidar, que usa lasers para medir distância e cria artefatos “malucos” em superfícies reflexivas, como espelhos e lixeiras, que se transformam em abismos ou formas distorcidas nos scans. O resultado são modelos 3D imperfeitos, com uma estética “disforme” e “remendada”. Welch admite que poderia usar técnicas de maior fidelidade, como Gaussian splats, mas prefere a aparência atual, que ele considera “adequada ao espaço”.

Essa seriedade curatorial se estende ao design do site, que emula a sobriedade de arquivos de museus e bibliotecas. O contraste entre o tema e a apresentação é deliberado. Recentemente, o projeto foi aberto a submissões públicas, o que validou a premissa de Welch. As contribuições expandiram o acervo de forma inesperada: um banheiro totalmente destruído no porão de um aeroporto no Tennessee, identificado apenas pelo “fantasma de um mictório”, e um pub em Dublin com paredes cobertas por grafites de grupos de esquerda e clubes de futebol, um contexto cultural que um observador americano não captaria.

O Restroom Archive é um lembrete de que a preservação cultural não reside apenas em monumentos, mas também nos cantos mais mundanos da vida cotidiana. A ambição de Welch é que o acervo se torne global, capturando as diferentes abordagens de design e uso desses espaços ao redor do mundo. Por enquanto, ele tem um pedido específico: “Precisamos de seus scans na Carolina do Sul.”

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media