O termo é ‘policrise’: uma confluência de crises interconectadas e sobrepostas que definem a era atual. De um lado, a ascensão do autoritarismo e do populismo de extrema-direita. De outro, o agravamento da catástrofe climática e ecológica. Soma-se a isso a crescente probabilidade de um conflito nuclear e o desenvolvimento acelerado e não regulado da inteligência artificial generativa. O resultado é um estado de medo, incerteza e insegurança que se tornou pano de fundo da vida contemporânea.
A análise, detalhada em um ensaio do autor John Ambrosio para a publicação 3 Quarks Daily, argumenta que essa convergência de ameaças existenciais nos coloca diante de um dilema fundamental. Com o conhecimento sobre esses perigos se tornando inescapável na era digital, como podemos conviver com ele? A tentação de recuar para a negação é imensa, mas a paralisia não é uma estratégia. A questão central não é se as crises existem, mas como respondemos psicologicamente e coletivamente a elas.
A sedução da ignorância voluntária
Diante de uma realidade avassaladora, a mente humana busca refúgio. O ensaio recorre à observação de T.S. Eliot de que “a humanidade não suporta muita realidade”. Essa incapacidade de encarar verdades inconvenientes ou ameaçadoras gera um mecanismo de defesa poderoso: a ignorância voluntária. Trata-se de uma escolha, consciente ou não, de desviar o olhar para preservar o bem-estar emocional, a identidade e a sensação de normalidade no dia a dia. É a lógica por trás da famosa máxima de Upton Sinclair: “é difícil fazer um homem entender algo quando seu salário depende de ele não entender”.
Essa capacidade de autoengano não é um fenômeno novo, mas ganha contornos perigosos na era da policrise. O historiador Edward Gibbon, ao analisar a queda do Império Romano, apontou a “incapacidade deliberada das pessoas de reconhecer o quanto seus hábitos, rituais e leis... mudaram lentamente — até que fosse tarde demais”. Hoje, a fragmentação da informação e a polarização política amplificam essa tendência. A “vontade de ignorar”, como descreve o ensaio, torna-se virulenta, permitindo que muitos se isolem em bolhas protetoras enquanto as fundações do mundo que conhecem erodem gradualmente.
O preço da verdade e a aposta na ação
Se a ignorância oferece um tipo de felicidade — frágil e condicionada —, a busca pela verdade tem seu custo. Encarar a magnitude das ameaças atuais pode minar a alegria e o otimismo. O artigo questiona: que tipo de felicidade vale a pena se ela depende de negar a realidade? A recusa em olhar para o abismo, no entanto, traz consigo uma responsabilidade: a de agir contra a barbárie e o colapso civilizacional. O antídoto para o desespero, segundo essa linha de pensamento, não é uma esperança ingênua, mas uma ação consciente e coletiva.
Inspirando-se em pensadores como Antonio Gramsci, o desafio é conciliar o “pessimismo do intelecto com o otimismo da vontade”. Reconhecer a gravidade da situação (pessimismo) sem sucumbir à paralisia, canalizando a energia para a ação (otimismo). Isso ecoa o apelo de Timothy Snyder para “não obedecer com antecedência” — ou seja, não agir como se a batalha pelo futuro já estivesse perdida. A resposta à ansiedade existencial não é individual, mas solidária. É encontrar força na ação conjunta, mesmo sem garantias de sucesso, para proteger o que se valoriza.
A história, como lembra o ensaio, não segue leis de ferro nem trajetórias inevitáveis. Grandes movimentos sociais, da abolição aos direitos civis, emergiram em contextos que pareciam impossíveis de superar. A resposta à policrise não virá de uma única nação ou de uma figura carismática, mas da construção de um esforço global. Em um mundo de incerteza espetacular, a pergunta que fica não é como encontrar a felicidade, mas como ter a coragem de usar nosso próprio entendimento, como pedia Kant, para construir o caminho enquanto caminhamos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 3 Quarks Daily



