Num tocante ensaio pessoal publicado pelo blog da revista The Paris Review, a produtora de cinema Molly Cooper narra uma história que se situa na delicada intersecção entre biografia, acaso e a ficção. Trata-se do dia em que seu pai, um antigo e celebrado escritor da revista The New Yorker, foi escalado para uma ponta em “A Vida Aquática com Steve Zissou”, o filme de Wes Anderson que ela ajudava a produzir em Roma, no verão de 2002.
O que poderia ser uma anedota de bastidores se revela uma reflexão profunda sobre memória, declínio e o poder da narrativa. O pai de Cooper, que passara décadas cobrindo a corrida espacial com prestígio, encontrava-se em uma aposentadoria precoce e indesejada, abalado por uma demissão e um divórcio. A escalação para o filme foi um acidente: um ator adoeceu, e o pai, que visitava a filha, era um falante nativo de inglês da idade certa. A experiência, embora breve e repleta de ansiedade, se tornaria o roteiro de sua própria história nos anos finais de sua vida.
A arte como espelho
A carreira do pai de Molly Cooper espelhava a ascensão e queda do interesse americano pela exploração espacial. Ele alcançou o emprego dos sonhos na The New Yorker, onde narrou as missões Apollo e as viagens que se seguiram. Era uma figura de reverência para a filha, um profissional no auge de sua relevância. Contudo, com o desastre da Challenger nos anos 80 e o arrefecimento do fascínio público pelo espaço, sua especialidade perdeu tração. Em meados dos anos 90, foi dispensado.
É impossível não notar o paralelo com o protagonista do filme em que ele foi escalado. Steve Zissou, interpretado por Bill Murray, é um oceanógrafo envelhecido, assombrado por fracassos e pela perda de seu melhor amigo, que embarca numa última expedição melancólica. Como a própria Cooper escreve, a história era sobre “um homem chegando ao fim da meia-idade, um pouco machucado, mas ainda disposto a uma última tentativa”. A escalação de seu pai para o papel de um repórter que entrevista aventureiros científicos não foi apenas uma coincidência, mas um eco quase poético de sua própria vida.
O palco como redenção
A realidade das filmagens, no entanto, foi menos poética e mais angustiante. O pai, consumido pela ansiedade e por uma gagueira intermitente que piorava sob pressão, sentia-se “como um cordeiro indo para o abate”. No set, diante das câmeras, ele repetidamente errou suas poucas falas, trocando nomes e esquecendo frases. Bill Murray, sentado ao seu lado, soltou um longo suspiro de exasperação. A cena, que duraria segundos na tela, levou quase uma hora para ser filmada, com a filha assistindo à distância, aflita.
O ponto de virada não ocorreu no estúdio, mas depois. De volta a Nova York, o pai transformou o episódio embaraçoso em sua grande história. Ele não apenas a contava para todos, como a publicou na revista de ex-alunos de sua faculdade, rebatizou seu barco para “The Life Aquatic” e exibia fotos da filmagem em sua lareira. A análise aqui é que ele tomou controle de um momento de vulnerabilidade e o reescreveu como uma comédia heroica. O homem que havia perdido a grande narrativa de sua carreira encontrou um novo roteiro, menor, porém inteiramente seu, para protagonizar.
No fim, como Cooper revela, a única gravação que ela possui da voz de seu pai é justamente o clipe de oito segundos do filme, onde ele finalmente acerta a fala. A ponta não apenas deu ao pai uma história para contar; deixou para a filha um fragmento indelével de memória, um instante de ficção que se tornou o registro mais duradouro de uma vida real.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Paris Review Blog





