Houve um tempo em que a demonstração pública de afeto era um tabu, e a engenharia, talvez sem querer, ofereceu uma solução. No interior da província de New Brunswick, no Canadá, centenas de pontes cobertas de madeira foram erguidas entre o final do século 19 e o início do 20. O objetivo era pragmático: proteger a estrutura e os viajantes dos invernos rigorosos. Mas o povo lhes deu outro nome: 'pontes do beijo'.

Protegidos dos olhares curiosos, os casais que cruzavam os rios em carruagens puxadas por cavalos encontravam nos breves momentos de escuridão uma privacidade rara. O apelido, portanto, não é um mistério. De centenas dessas estruturas, hoje restam pouco mais de 60. Um dos mais emblemáticos sobreviventes é a Ponte Coberta Burpee, em Gaspereau Forks, com seus 50 metros de comprimento. Placas no local datam sua construção em 1913, embora recortes de jornais da época sugiram que ela já estava em uso no verão de 1912. O nome homenageia a família Burpee, que possuía terras na região.

Longe de ser uma relíquia intocada, a ponte continua a ser um espaço vivo. Em seu interior, as vigas de madeira servem de tela para grafites de estudantes do ensino médio, que marcam sua formatura com nomes e símbolos. A prática é uma nova camada na tradição do lugar, um rito de passagem contemporâneo que se apropria do espaço sem diminuir seu charme histórico. É a prova de que a estrutura não apenas resistiu ao tempo, mas foi adotada por novas gerações.

Os tempos das carruagens se foram, mas o costume persiste. Hoje, em picapes ou carros elétricos, o gesto se repete, um eco silencioso sob a estrutura de madeira. A ponte, construída para vencer um rio, acabou por conectar gerações através de um mesmo e discreto ato de afeto. A engenharia resolveu um problema prático, mas foi a cultura que lhe deu uma alma.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Atlas Obscura