Uma nova onda estética, batizada de “grunge de luxo”, tomou de assalto a moda masculina. A premissa é um paradoxo intencional: roupas novas, fabricadas com materiais nobres e técnicas sofisticadas, são desenhadas para parecer que foram usadas por décadas, surradas e até incendiadas. Moletons desbotados, jeans rasgados e camisetas esgarçadas chegam ao consumidor final com etiquetas de preços que podem facilmente ultrapassar os US$ 1.500 por peça.
O movimento, dissecado em uma análise aprofundada da publicação Highsnobiety, representa mais do que uma simples nostalgia dos anos 90. É a materialização de uma profecia feita por Virgil Abloh pouco antes de sua morte, de que o streetwear “morreria” e seria substituído pelo vintage. A previsão estava correta, mas com uma reviravolta: o vintage que domina as ruas hoje é, na verdade, novo em folha. A tese aqui é que a aparência de autenticidade e rebeldia foi cooptada e transformada em um produto de altíssimo luxo, onde a destruição é um sinal de esmero artesanal, não de descaso.
Das passarelas de Jacobs à Califórnia
A memória da moda frequentemente aponta para o lendário desfile “grunge” de Marc Jacobs para a Perry Ellis em 1993 como o marco zero da estética. Visto hoje, porém, aquele momento parece mais uma interpretação higienizada. O grunge de luxo contemporâneo leva a proposta ao pé da letra. As roupas parecem ter uma história, mas são produzidas com uma qualidade antes reservada à alta-costura. As camisetas esfiapadas são feitas com algodão japonês sob medida; os jeans são destruídos à mão, num processo que pode levar horas.
Embora seja difícil cravar uma data de nascimento, o consenso é que o movimento moderno ganhou força em Los Angeles. Rick Owens, que lançou sua marca na cidade logo após a demissão de Jacobs, foi um pioneiro das silhuetas sombrias e folgadas que informaram o visual. Sua influência ecoou em nomes como Jerry Lorenzo, da Fear of God, que canalizou a estética para um público mais amplo, notavelmente vestindo Justin Bieber na turnê “Purpose” de 2016. A partir daí, marcas como Amiri e Gallery Dept. refinaram a fórmula, elevando jeans remendados e camisetas com falso desgaste a um patamar de preço estratosférico, apagando de vez a fronteira entre streetwear e luxo. A Balenciaga de Demna Gvasalia, por sua vez, consolidou o visual em escala global, com suas flanelas surradas e jeans gigantes que definiram um padrão para o mercado.
A nova guarda da destruição programada
A pandemia parece ter acelerado a tendência, com uma nova safra de marcas surgindo para atender a uma demanda por roupas que parecem ter alma, mesmo que fabricada. Cada uma ataca um nicho, mas todas compartilham da mesma filosofia. A Enfants Riches Déprimés (em tradução literal, “Crianças Ricas Deprimidas”) é talvez o exemplo mais explícito do ethos. Fundada em 2012, a marca vende peças com nomes provocativos e preços absurdos, como jaquetas de trabalho de US$ 3.250, e esgota seus estoques regularmente.
Outros nomes se destacam por suas abordagens particulares. A japonesa Saint Michael, cofundada pelo artista Cali Thornhill DeWitt (criador do icônico merchandising de “The Life of Pablo”, de Kanye West), é considerada por muitos uma definidora do visual. A marca aplica tratamentos manuais para alcançar uma aparência de segunda mão autêntica em peças novas. Já a Maison MIHARA YASUHIRO ficou famosa por seus tênis com solados deformados, como se derretidos, aplicando a mesma lógica de distorção a moletons e calças de proporções exageradas. Marcas como Hellstar e RRR123, por sua vez, conectam a estética com a cultura de “drops” do streetwear e referências filosóficas, provando a versatilidade do conceito.
No fim, o fenômeno do grunge de luxo levanta questões sobre o que o consumidor busca hoje. Aparentemente, é uma forma de rebeldia que pode ser comprada, um atestado de autenticidade que não exige o desgaste do tempo. É a performance da contestação, vestida por quem pode pagar milhares de dólares para parecer que não se importa. O cheiro de espírito adolescente, como cantava o Nirvana, foi engarrafado e colocado à venda na prateleira mais alta do varejo de luxo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





