Imagine duas linhas num gráfico se movendo em direções opostas. Uma, representando a desigualdade de renda em diversas partes do mundo, apresenta uma leve, porém constante, tendência de queda. A outra, medindo a concentração de patrimônio — ativos, imóveis, heranças —, dispara para cima, abrindo um abismo cada vez maior entre os que têm e os que não têm. Este não é um exercício teórico, mas o paradoxo que define a economia global contemporânea.

É a partir dessa imagem que um grupo de notáveis, incluindo o economista laureado com o Nobel Joseph Stiglitz e Winnie Byanyima, diretora da UNAIDS, assina um contundente editorial na revista Nature. A frustração dos autores é palpável: o diagnóstico sobre os efeitos corrosivos da desigualdade de riqueza é claro e consensual na academia, mas tem sido incapaz de gerar ação política à altura do desafio.

O Diagnóstico Ignorado

O problema central, argumentam os autores, é que a desigualdade de patrimônio é mais perniciosa e estrutural que a de renda. Enquanto a renda reflete o fluxo do trabalho e do capital em um período, o patrimônio é o estoque acumulado ao longo de gerações. Ele é mais "pegajoso", solidifica vantagens e cria barreiras quase intransponíveis para a mobilidade social. Essa concentração de riqueza não apenas distorce a economia; ela envenena a política, alimentando a polarização e erodindo a confiança nas instituições democráticas, vistas como incapazes ou cúmplices desse processo.

O conhecimento sobre as causas e consequências está consolidado há anos, mas a inércia política prevalece. A leitura é que a complexidade do tema e o poder dos interesses beneficiados pela concentração criaram um vácuo de ação. A elite acadêmica sabe o que está errado, mas sua voz não reverbera nos corredores do poder com a urgência necessária.

Um Painel para Traduzir a Ciência

Cansados de ver suas pesquisas acumularem poeira em bibliotecas universitárias, os autores propõem uma solução que soa ao mesmo tempo ambiciosa e burocrática: a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade (IPI, na sigla em inglês). O modelo se assemelha ao do IPCC, o painel climático da ONU, e consiste em reunir cerca de 40 especialistas para revisar e sintetizar o conhecimento existente, apresentando-o de forma inequívoca aos formuladores de políticas.

A proposta já nasce com o apoio da Organização das Nações Unidas e da União Africana, além de mais de 700 economistas e acadêmicos. A aposta é que um corpo de notáveis, falando com uma só voz e com a chancela de instituições globais, possa finalmente quebrar o impasse. Trata-se de uma tentativa de criar um tradutor oficial entre a ciência econômica e a ação política, forçando o debate para além da negação ou da paralisia.

O movimento sugere um certo esgotamento com o modelo atual de influência. Não basta publicar papers; é preciso construir um consenso institucionalizado e politicamente audível. A questão que paira no ar, contudo, é se, em uma era definida pela desconfiança em especialistas e pela polarização extrema, um novo painel de experts será ouvido ou apenas mais uma voz perdida no ruído.

Com reportagem de Brazil Valley

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