A “Grande Road Trip Americana” é um subgênero literário quase sagrado, imortalizado por Jack Kerouac e John Steinbeck. Mas para a romancista Winnie M. Li, essa narrativa icônica sempre pareceu incompleta. Em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, Li argumenta que a jornada pela estrada, tradicionalmente protagonizada por personagens brancos, ganha novas e urgentes camadas quando contada por outras vozes.

A tese é direta: a experiência de cruzar os Estados Unidos de carro não é universal. Para um homem branco como Kerouac, a estrada pode simbolizar a liberdade pura. Para uma pessoa não-branca, a mesma viagem é atravessada por uma consciência constante de raça e gênero, transformando a aventura em um exercício de navegação por ameaças e preconceitos. A estrada deixa de ser apenas um cenário para se tornar um personagem que reflete as tensões da própria América.

Uma jornada, múltiplas Américas

O movimento que Li descreve não é isolado. Uma nova safra de autores está usando o formato da road trip para dissecar as complexidades da identidade nos EUA. Onde a geração beatnik buscava transcendência, escritores como Matt Ruff, em Lovecraft Country, encontram o terror real das "sundown towns" — cidades onde negros não podiam circular após o pôr do sol. A estrada, nesse contexto, não é um caminho para a iluminação, mas um mapa de zonas de perigo históricas.

Essa subversão do gênero transforma a viagem em um ato de arqueologia social. O livro de não-ficção Overground Railroad, de Candacy Taylor, por exemplo, documenta a história do "Green Book", um guia que listava estabelecimentos seguros para viajantes negros durante a era da segregação. A jornada, aqui, não é sobre escapismo, mas sobre a própria possibilidade de sobrevivência e a resiliência de uma comunidade que construiu suas próprias rotas seguras em um país hostil.

Do épico à crônica familiar

A mudança de perspectiva também altera a escala da narrativa. O épico individualista de On the Road dá lugar a crônicas familiares e dramas íntimos. Em The Wangs Vs. the World, de Jade Chang, uma família de imigrantes taiwaneses-chineses perde sua fortuna e cruza o país de carro, transformando a viagem em uma comédia de costumes sobre classe e assimilação. O carro vira um microcosmo das tensões familiares e culturais.

O mesmo ocorre no romance de Li, What We Left Unsaid, onde três irmãos de origem taiwanesa-americana percorrem a Rota 66. A viagem serve como catalisador para resolver dramas familiares e confrontar o passado e o presente da América. A estrada não é mais o destino final, mas o palco onde as complexas relações de pertencimento, herança e identidade são negociadas, quilômetro a quilômetro.

O ponto central não é apagar os clássicos, mas expandir o mapa. Ao colocar protagonistas negros, asiáticos e latinos ao volante, esses autores não estão apenas contando uma nova história de estrada. Eles estão revelando as muitas Américas que sempre existiram ao longo da rodovia, muitas vezes invisíveis para quem passava na pista ao lado. A paisagem pode ser a mesma, mas o que se vê pela janela depende fundamentalmente de quem está dirigindo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub