A NASA conseguiu cultivar alfaces a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI), um passo que parecia fundamental para a alimentação em missões de longa duração. Contudo, uma análise aprofundada dos vegetais espaciais revelou um obstáculo significativo para os planos de habitação fora da Terra.

Segundo um estudo publicado na revista Nature, com base em dados da própria agência espacial, as plantas cultivadas em microgravidade são nutricionalmente deficientes. A descoberta lança um balde de água fria sobre os planos de autossuficiência alimentar para uma eventual colonização de Marte, mostrando que a biologia, tanto vegetal quanto humana, se comporta de maneira inesperada longe da força gravitacional terrestre.

O paradoxo da horta espacial

Visualmente, a alface cultivada em órbita é idêntica à sua contraparte terrestre. A análise química, no entanto, conta outra história. O estudo aponta uma queda de até 31% nos níveis de cálcio e de 25% em magnésio. O ambiente de microgravidade parece alterar a forma como as plantas absorvem minerais e gerenciam o estresse, resultando também em uma redução de antioxidantes que as protegem da radiação cósmica.

Na prática, as plantas entram em um estado de sobrevivência que compromete seu valor nutricional. Como advertiram os autores do estudo, uma salada espacial pode parecer perfeita, mas não fortalece os ossos. O achado espelha os desafios observados em humanos, como a perda acelerada de densidade óssea em astronautas, indicando um problema sistêmico para a vida em missões prolongadas.

Biofortificação e fermento como saídas

O problema, no entanto, não está sem propostas de solução. Cientistas investigam duas avenidas principais. A primeira é a biofortificação, que utiliza engenharia genética para desenvolver plantas com níveis naturalmente mais altos de minerais essenciais. Outra tática é cultivar espécies mais ricas em flavonoides, como soja e alho, que oferecem maior proteção celular.

Uma segunda frente, mais surpreendente, é a fermentação. A NASA já conseguiu fermentar missô a bordo da EEI, provando que microrganismos podem se adaptar ao ambiente espacial e contribuir para a saúde da microbiota intestinal dos astronautas. Este ponto é crítico, já que estudos como o Twins Study da própria agência sugerem que a microgravidade também prejudica a capacidade do corpo humano de absorver nutrientes.

Esses experimentos ressaltam uma realidade fundamental para as ambições espaciais, incluindo as da SpaceX de Elon Musk. A colonização de Marte não é apenas um desafio de engenharia e propulsão, mas um profundo quebra-cabeça biológico. Garantir que uma salada em Marte seja tão nutritiva quanto uma na Terra é, hoje, um dos obstáculos mais complexos e essenciais para a sobrevivência humana fora do nosso planeta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech