O telhado de alumínio se dobrou como papel. Objetos voavam pela janela. Presa no segundo andar de sua casa em Nova Iguaçu (RJ), a designer Jéssica Alcântara, 30 anos, sentiu que estava no olho de uma microexplosão em 2022. A experiência foi o gatilho. Nos meses seguintes, qualquer previsão de tempo ruim trazia apreensão, culminando em uma crise de ansiedade tão forte que a deixou paralisada no chão. O evento climático extremo não apenas danificou sua casa; ele se instalou em sua mente.

A história de Jéssica não é um caso isolado, mas a ponta de um iceberg de um fenômeno crescente: a ecoansiedade. Embora não seja um diagnóstico clínico formalizado, a Associação Americana de Psicologia (APA) o define desde 2017 como o “medo crônico de catástrofes ambientais”. É uma angústia persistente que interfere no sono, na concentração e nas decisões cotidianas, um reflexo psíquico de um planeta em desequilíbrio. Uma pesquisa do Instituto Cactus de 2025 revelou que 74,3% dos brasileiros já vivenciaram um evento climático extremo, e 42% sentem o impacto em sua saúde mental.

Ansiedade em estado de emergência

A ecoansiedade se manifesta de duas formas principais. A primeira é reativa, como a de Jéssica, nascida de um trauma direto. Para quem sobrevive a enchentes, incêndios ou tempestades violentas, o medo de uma repetição se torna uma sombra constante. William Berger, professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, explica que, após um desastre, a porta se abre para sequelas como o transtorno do estresse pós-traumático. O clima, antes um pano de fundo, vira um protagonista ameaçador na vida das pessoas.

O fenômeno, contudo, não se restringe aos que viveram a catástrofe na pele. A segunda forma de ecoansiedade é antecipatória, alimentada por um fluxo constante de notícias sobre o aquecimento global e a inação de governos e corporações. Uma pesquisa do PNUD e da Universidade de Oxford mostrou que 56% das pessoas pensam sobre o clima ao menos uma vez por semana. Essa angústia existencial, a sensação de impotência diante de forças colossais, é o que move a ansiedade de muitos que, como Jéssica, agora se perguntam: “para que tipo de cidade quero me mudar para me sentir mais segura?”.

A vida em compasso de espera

Para o cientista político Diogo Feliciano, 30 anos, a ecoansiedade não veio de uma tempestade, mas da leitura da realidade. Morador de São Paulo, ele nunca viveu um evento extremo, mas o peso da crise climática molda suas escolhas mais íntimas. Ele evita carros e o consumo de fast fashion, mas a principal decisão diz respeito ao futuro: ele quer ser pai, mas planeja adotar. “Eu me sentiria muito culpado de colocar uma criança em um mundo que parece que não aguentará 30 anos”, afirma.

A fala de Diogo encapsula a paralisia e a frustração de uma geração. Ele descreve a sensação de impotência ao comparar seus esforços individuais, seu “trabalho de formiguinha”, com a escala dos problemas, como a construção de data centers por gigantes de tecnologia. É um desespero que nasce da desproporção entre a responsabilidade sentida e o poder de mudança real. A crise deixa de ser um problema ambiental e se torna uma crise de agência pessoal e de esperança.

Especialistas sugerem que transformar a ansiedade em ação — seja na coleta seletiva do condomínio ou na mobilização por políticas públicas — é um caminho para recuperar a sensação de controle. Para Jéssica, o conhecimento sobre os fenômenos climáticos e ter um “plano B” ajudaram a mitigar o pânico. Para Diogo, a esperança, ainda que frágil, o motiva a continuar trabalhando com o tema. A ecoansiedade, afinal, talvez seja a resposta mais sã e racional a um mundo que parece ter enlouquecido. É o alarme interno soando diante de um perigo real e presente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney