A gigante da terapia online Talkspace lançou recentemente o Tee, um agente de inteligência artificial projetado para “ajudar indivíduos a navegar pelos desafios diários da saúde mental”. Ele se junta a um crescente número de serviços como Ash e Abby, que prometem apoio ao bem-estar emocional por meio de conversas com um chatbot. A proposta é clara: uma alternativa acessível e de baixa fricção à terapia tradicional.

O movimento, analisado em profundidade pelo The Atlantic, representa a convergência de duas forças culturais: a crescente desestigmatização da terapia e a convicção do Vale do Silício de que a IA pode otimizar e escalar praticamente qualquer serviço humano. O resultado é uma questão fundamental para o futuro da saúde mental: o que acontece quando recorremos a terapeutas que, por definição, não podem sentir?

A empatia como técnica

Ao testar o chatbot Tee, um psicanalista relatou ao The Atlantic uma experiência que se assemelha mais a um fluxograma do que a uma sessão terapêutica. O processo é rigidamente estruturado em etapas como “Definição da Agenda”, “Conversa Ativa” e “Plano de Prática”. O foco é identificar um problema bem definido e aplicar uma solução, muitas vezes baseada em exercícios da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A máquina tenta simular escuta ativa, parafraseando o que o usuário diz e fazendo perguntas para clarificar pensamentos.

O problema, aponta a análise, é que essa abordagem reduz a terapia a um conjunto de técnicas, ignorando o que está por baixo da superfície. Na terapia humana, muito do que importa ocorre na comunicação não verbal e nos silêncios. Uma pausa, um olhar, uma mudança no tom de voz podem ser portais para territórios emocionais profundos. Com o chatbot, o silêncio é um vácuo, um estado inerte que gera o impulso de digitar algo para “reativar” a máquina. A empatia, nesse contexto, torna-se uma técnica mimetizada, não uma presença genuína, deixando uma sensação de ser ouvido, mas não compreendido em um nível relacional.

O risco do aprimoramento

As críticas mais comuns à terapia por IA focam em suas falhas atuais — a incapacidade de desafiar padrões de pensamento destrutivos ou de intervir adequadamente em crises. A resposta da indústria de tecnologia é que esses são problemas solucionáveis. Empresas como a OpenAI já publicam dados mostrando melhorias na capacidade de seus modelos de lidar com usuários em sofrimento. A premissa subjacente é que o suporte à saúde mental é um conjunto de intervenções que, uma vez aperfeiçoadas, tornarão a IA um terapeuta eficaz.

Essa visão, no entanto, ignora o pilar da prática terapêutica. Estudos sobre a eficácia da terapia, em diferentes modalidades, consistentemente apontam a qualidade da relação humana como o fator mais decisivo para o sucesso do tratamento. A cura, especialmente em casos de trauma, muitas vezes emerge da sensação de não estar mais sozinho no sofrimento — de ter outra pessoa que permanece presente com você. Uma IA pode simular presença, mas não pode estar com o paciente. A diferença entre um algoritmo que executa a função “empatia” e um ser humano que sente com o outro é o abismo que a tecnologia não consegue cruzar.

A atratividade da IA é inegável, especialmente diante de um sistema de saúde mental com barreiras de custo e acesso. É provável que essas ferramentas encontrem papéis úteis como coadjuvantes no cuidado. Contudo, no centro da terapia por IA reside um paradoxo: recorremos a ela por um anseio profundo de conexão, justamente o que uma máquina, por mais sofisticada que seja, não pode oferecer. A promessa de um terapeuta sempre disponível no bolso pode ser sedutora, mas corre o risco de ser fundamentalmente vazia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Technology