Em entrevista ao podcast Market Makers, Guy Perelmuter, fundador da Grids Capital, argumenta que a inteligência artificial deixou de ser uma inovação isolada para se consolidar como uma tecnologia de propósito geral, comparável à eletricidade e à máquina a vapor. No entanto, o gestor alerta para um risco estrutural no atual ciclo de alocação de capital: os bilhões de dólares investidos em infraestrutura assumem que a IA continuará dependente do mesmo volume de GPUs e da mesma arquitetura energética. Para Perelmuter, novas arquiteturas de software e hardware podem subverter esse modelo nos próximos 12 a 36 meses, tornando obsoleta parte da infraestrutura que hoje sustenta o setor.
A tese da inevitabilidade e a fronteira científica
A estratégia da Grids Capital baseia-se no que o fundador define como "inevitabilidades". Em vez de tentar prever ciclos curtos de mercado, a gestora ancora suas teses em tendências globais inexoráveis. Uma delas é o envelhecimento populacional. Com a expectativa de vida global média em 74 anos e mais de 20 países ultrapassando a marca dos 82 anos, o foco das ciências da vida migra das doenças infecciosas para patologias associadas à idade, como doenças neurológicas, oncológicas e autoimunes. Outra inevitabilidade citada é a urbanização contínua, com o equivalente à população de uma Coreia do Sul migrando do campo para as cidades anualmente.
Essas forças demográficas exigem soluções de deep tech — tecnologias com alta densidade científica, propriedade intelectual e defensabilidade técnica. Perelmuter contrasta esse modelo com as startups tradicionais de software, que frequentemente apenas rearranjam ferramentas existentes. Em deep tech, o desenvolvimento envolve a criação de proteínas inéditas, novos algoritmos ou circuitos físicos que empurram a fronteira do possível.
Para navegar nesse ecossistema, a gestora adota uma postura de alocação indireta combinada com co-investimentos. Perelmuter reconhece que fundadores com doutorado no MIT ou em Stanford preferem capital de investidores com histórico na NASA ou no conselho da Pfizer. Assim, a Grids investe nos principais fundos de estágio inicial dos Estados Unidos, garantindo acesso a um funil já filtrado e permitindo posições em empresas como Anduril, Hugging Face e Applied Intuition, mesmo durante picos de valuation como o ocorrido em 2020.
A economia espacial e o paradoxo brasileiro
Além da biotecnologia e da inteligência artificial, a redução brutal nos custos de infraestrutura abriu uma nova fronteira de investimento no espaço. O gestor destaca que o custo para enviar um quilo de carga à órbita caiu de US$ 85 mil na década de 1980 para menos de US$ 1.000 atualmente. Essa mudança marginal de custo viabiliza a criação de uma economia em órbita baixa e na Lua, com demandas reais por dívida, equity e infraestrutura corporativa ao longo da próxima década. O espaço deixa de ser um projeto puramente governamental para se tornar um setor de finanças corporativas.
Para contexto editorial, a BrazilValley nota que essa dinâmica de barateamento da infraestrutura base tem precedentes na expansão da nuvem no início dos anos 2000, que reduziu drasticamente o custo de fundar uma startup e viabilizou a era do software como serviço, ainda que o falante não tenha traçado esse paralelo histórico exato no vídeo.
Apesar de o Brasil ocupar a 14ª ou 15ª posição global em citações acadêmicas de qualidade, o país enfrenta um paradoxo competitivo. Perelmuter ressalta que as startups locais de software costumam focar em resolver ineficiências jurídicas ou tributárias exclusivamente brasileiras. Por outro lado, o desenvolvimento de uma nova molécula ou placa de circuito nasce competindo globalmente desde o primeiro dia. O desafio que resta é traduzir a excelência acadêmica nacional em propriedade intelectual escalável, superando um ambiente de negócios historicamente complexo para a inovação de base científica.
Fonte · Brazil Valley | Technology




