Após duas décadas e quase US$ 1 bilhão destinados à filantropia, o investidor Bill Ackman chegou a um veredito: o capitalismo é uma ferramenta mais potente para o bem social. "A filantropia é vastamente menos eficiente para resolver problemas do que o capitalismo", disse o fundador da Pershing Square Capital Management em entrevista à Fortune. Para ele, a criação de empregos e a disciplina do mercado superam o impacto de doações.

A visão de Ackman ecoa a de Jeff Bezos, que recentemente fez uma defesa similar do papel de suas empresas. O argumento representa uma tese em voga entre os grandes alocadores de capital: o maior legado de um líder não são os cheques que assina, mas o valor que sua companhia gera para a sociedade. A questão é se essa lógica se sustenta para além do discurso.

O híbrido como solução

Ackman não está abandonando as doações, mas sim tentando redesenhá-las. Sua nova aposta é o Brain Research Rehabilitation Institute, um instituto de pesquisa cerebral que nasce com capital filantrópico, mas com uma estrutura pensada para gerar empresas for-profit. A ideia é usar os incentivos do capitalismo — como participação acionária para a equipe — para acelerar o desenvolvimento de tratamentos, moléculas e dispositivos.

O modelo busca preencher uma lacuna de mercado: o abismo entre a ciência básica, financiada por governos e filantropia, e as startups maduras o suficiente para atrair venture capital. A estrutura sem fins lucrativos, segundo Ackman, garante o acesso a pesquisadores e instituições acadêmicas que não se associariam a uma empresa puramente comercial, enquanto o braço for-profit injeta a disciplina que ele julga faltar em ONGs.

O CEO como benfeitor

A tese de Ackman e Bezos reposiciona o papel do CEO. Nesta ótica, o executivo de uma grande corporação é um agente de progresso social mais eficaz que um filantropo tradicional. A inovação, a conveniência para o consumidor e, principalmente, a geração de empregos são apresentados como o verdadeiro "bem público".

A crítica a essa visão, no entanto, é que ela ignora as externalidades negativas. O argumento permite que os ultra-ricos reivindiquem crédito pelo sucesso de seus negócios como contribuição social, sem prestar contas sobre o impacto de suas operações no mercado de trabalho, na concentração de poder econômico ou na crise habitacional de grandes centros — problemas que suas empresas, por vezes, ajudam a intensificar.

A iniciativa de Ackman encapsula a tensão de seu próprio argumento. Ao mesmo tempo em que exalta o capitalismo, ele recorre a uma entidade sem fins lucrativos para viabilizar seu projeto mais ambicioso. Não se trata de uma contradição, mas do reconhecimento de que o mercado, sozinho, não consegue resolver tudo. A busca não é por um vencedor entre capitalismo e filantropia, mas por um modelo que extraia o melhor de cada um.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune