A gigante espanhola de energia Iberdrola e a Fundação Asprima, associação que representa as incorporadoras imobiliárias de Madri, firmaram uma aliança para acelerar a eletrificação e a eficiência energética em novos projetos residenciais. O acordo formaliza uma colaboração que já vinha sendo desenhada desde 2022, quando a Iberdrola começou a trabalhar com construtoras para integrar soluções de energia limpa em seus empreendimentos.

O movimento é estratégico e sinaliza uma mudança fundamental na relação entre os setores de energia e construção. A eletricidade deixa de ser uma commodity entregue após a obra e passa a ser um componente de valor, integrado desde a prancheta. A parceria visa criar um centro de conhecimento para disseminar casos de sucesso e padronizar a adoção de tecnologias como painéis solares, sistemas de climatização por aerotermia e infraestrutura de recarga para veículos elétricos.

Da commodity ao projeto integrado

A lógica por trás da aliança é pragmática. Para as incorporadoras, a integração de soluções energéticas eficientes permite antecipar exigências regulatórias, como o Código Técnico de Edificação espanhol, e obter selos de alta qualificação energética. Essa certificação, por sua vez, destrava o acesso a financiamentos verdes — as chamadas "hipotecas verdes" — e benefícios fiscais, agregando valor direto ao ativo imobiliário.

Para a Iberdrola, a parceria garante um canal direto com quem "constrói as cidades", nas palavras de seu responsável de 'Smart Solutions', Luis Buil. Em vez de disputar o cliente final de forma pulverizada, a empresa de energia se posiciona como uma parceira estratégica na concepção de bairros e edifícios inteiros, garantindo demanda qualificada e de longo prazo para suas soluções de descarbonização. É um modelo onde a sustentabilidade se alinha diretamente ao retorno financeiro.

Um modelo para o Brasil?

A iniciativa, embora focada em Madri, oferece um roteiro claro para outros mercados, incluindo o brasileiro. Aqui, onde o debate sobre construções sustentáveis e certificações ESG ganha tração, a articulação entre grandes empresas de energia e as principais incorporadoras ainda é incipiente. A colaboração entre a Iberdrola e a Asprima demonstra que a eletrificação residencial não é apenas uma pauta ambiental, mas uma tese de investimento.

O desafio é replicar os incentivos. Enquanto na Espanha há um arcabouço de regulações e benefícios fiscais claros, no Brasil seria preciso construir uma ponte similar entre políticas públicas, o sistema financeiro e o setor privado. A pergunta que fica é quem assumirá a liderança para transformar a relação entre distribuidoras de energia e construtoras de transacional para simbiótica.

A aliança espanhola é um microcosmo de como a transição energética será, literalmente, construída: não apenas com grandes usinas, mas tijolo por tijolo, a partir da colaboração entre setores que antes operavam em silos. O futuro da moradia parece ser, inevitavelmente, elétrico e inteligente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España