Moradores de La Moraleja, um dos endereços mais exclusivos de Madri, foram surpreendidos pela súbita construção de uma torre de alta tensão de 47 metros a menos de 40 metros de suas casas. Segundo reportagem do portal espanhol Xataka, a estrutura foi erguida sem aviso prévio aos residentes e serve para alimentar um novo e ambicioso polo de desenvolvimento urbano e tecnológico na região, o Valdebebas.

O episódio ilustra uma tensão clássica do urbanismo, popularmente conhecida como "Not In My Backyard" (Não no Meu Quintal), mas com uma variável de peso: o CEP. O conflito opõe a necessidade de infraestrutura para o crescimento da cidade à proteção do patrimônio — e do estilo de vida — de uma comunidade abastada. A disputa se desdobra em dois eixos principais: o temor com a desvalorização imobiliária e a preocupação com potenciais riscos à saúde.

O preço da vista

O argumento financeiro é o mais tangível. Estudos citados pela reportagem indicam que a proximidade de torres de alta tensão pode depreciar o valor de um imóvel entre 10% e 20%, um impacto direto e significativo no patrimônio dos moradores. Em mercados imobiliários aquecidos, como o de bairros de luxo em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde a "vista" é um componente crucial na precificação, o dano percebido é ainda maior.

O paradoxo é que a instalação, realizada pela Red Eléctrica, cumpre a legislação espanhola, que exige uma distância de segurança de apenas 5 a 7 metros de edifícios. A torre está a quase 40 metros. A legalidade do ato, contudo, não anula seu efeito no mercado. A reação política foi imediata: o município afetado, que alega não ter sido devidamente comunicado, já aprovou uma moção unânime pedindo o soterramento dos cabos — uma solução tecnicamente viável, porém muito mais cara.

Risco real vs. percepção

A outra frente de batalha é a da saúde. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirme não haver provas conclusivas de que campos eletromagnéticos de baixa frequência causem danos, sua própria agência de pesquisa sobre o câncer (IARC) os classifica como "possivelmente cancerígenos", na mesma categoria do café. Essa ambiguidade alimenta a ansiedade e serve de argumento para os residentes, ainda que as medições de exposição no local estejam bem abaixo dos limites de segurança internacionais.

O caso de La Moraleja não é isolado. É um microcosmo dos desafios enfrentados por metrópoles em expansão. O progresso, materializado em distritos de inovação e novos bairros, exige energia, cabos e torres. A questão que emerge é quem deve arcar com os custos — não apenas os financeiros, mas também os de paisagem e bem-estar — dessa modernização. A Red Eléctrica se comprometeu a estudar alternativas, mas a torre, por enquanto, permanece, como um monumento ao complexo equilíbrio entre o desenvolvimento coletivo e o interesse privado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka