Em conversa recente com o apresentador Shane Boll, a professora de direito e economia Gillian Hadfield, da Universidade Johns Hopkins e da Universidade de Toronto, articulou uma mudança estrutural iminente: a transição para uma "economia de agentes". O argumento central é que a internet, historicamente desenhada por humanos para humanos, passará a ter sistemas de inteligência artificial como seus principais usuários, consumidores e produtores. Nessa nova configuração, as decisões fundamentais sobre o que produzir, como precificar e o que comprar deixam de ser exclusividade humana. Hadfield aponta que o mercado caminha para um cenário onde softwares autônomos negociam entre si, eliminando atritos psicológicos e redefinindo a própria mecânica de coordenação econômica que sustenta o capitalismo moderno.

A falha da infraestrutura legal e a pessoa jurídica algorítmica

A substituição de humanos por agentes na ponta das transações coloca em xeque a dinâmica de preços. Hadfield argumenta que táticas clássicas de marketing perdem o sentido para algoritmos que buscam implacavelmente o custo marginal. Isso levanta uma questão teórica profunda: a automação da demanda nos levará ao mercado perfeitamente competitivo idealizado por Adam Smith, ou resultará em um caos sistêmico devido à desconexão entre a intenção original do usuário e a execução autônoma do agente? Para testar esse limite, a pesquisadora cita o "teste de Turing moderno" proposto por Mustafa Suleyman: instruir uma IA a transformar US$ 100 mil em US$ 1 milhão em trinta dias, sem quebrar a lei.

O obstáculo para essa visão não é apenas técnico, mas institucional. Hadfield alerta que não existe infraestrutura legal para responsabilizar agentes de IA. A economia atual opera sobre identidades registradas pelo Estado, como certidões de nascimento e registros corporativos. Sem um sistema de identificação equivalente para algoritmos, torna-se impossível processar um agente que cometa fraudes ou firme contratos irregulares. Diante desse vácuo, a professora prevê que a sociedade acabará concedendo "personalidade jurídica" aos agentes de IA, não por reconhecer neles qualquer senciência, mas pela necessidade puramente transacional de permitir que essas entidades processem e sejam processadas judicialmente, exatamente como ocorreu historicamente com as corporações.

Mercados regulatórios e o futuro da firma

A resposta governamental a essa transformação tem sido insuficiente. Hadfield critica abordagens como o AI Act da União Europeia por tentarem impor regras estáticas a uma tecnologia em evolução exponencial. Em vez de o Estado ditar quais testes técnicos ou algoritmos devem ser usados, ela propõe a criação de "mercados regulatórios". Nesse modelo, o governo define apenas os resultados aceitáveis, como o risco máximo tolerável de um modelo auxiliar na criação de armas biológicas, e licencia auditores privados para verificar o cumprimento dessas metas. Para contexto, a BrazilValley aponta que essa estrutura descentralizada de conformidade espelha a mecânica do setor financeiro tradicional, onde agências independentes atestam a integridade dos balanços corporativos sem que o Estado precise microgerenciar a contabilidade interna.

Essa reconfiguração regulatória esbarra, por fim, na própria teoria da firma. Historicamente, empresas existem para mitigar os custos de transação e governança que ocorreriam se cada indivíduo operasse de forma independente no mercado. Contudo, Hadfield questiona o que acontece com as fronteiras de uma organização quando um único fundador pode operar milhares de agentes autônomos para conduzir pesquisa, vendas e produção. Questões sobre quem detém a propriedade intelectual se um agente inventar um produto, ou como proteger segredos comerciais quando a força de trabalho é integralmente algorítmica, permanecem sem resposta.

A análise de Hadfield deixa claro que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas um novo ator econômico. A urgência não reside apenas em resolver o problema técnico do alinhamento, mas em construir um andaime social e institucional capaz de suportar a velocidade dos agentes. Enquanto as decisões de governança permanecerem isoladas dentro dos limites corporativos das empresas de tecnologia, o mercado global operará no escuro, desprovido da infraestrutura legal necessária para evitar que a promessa de eficiência máxima degenere em risco sistêmico.

Fonte · Brazil Valley | Technology